Anti-inflamatório faz mal para o intestino? Os riscos de abusar desse medicamento
- há 11 horas
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Este assunto é recorrente em praticamente todas as especialidades médicas. Os medicamentos anti-inflamatórios estão entre os mais utilizados pelos brasileiros. Dores nas costas, musculares, de garganta, de cabeça, lesões esportivas e problemas articulares frequentemente levam muitas pessoas a recorrerem a esses remédios por conta própria, sem orientação médica.
Embora sejam extremamente eficazes no alívio da dor e da inflamação, seu uso indiscriminado está longe de ser inofensivo e as complicações levam muitos pacientes a procurar assistência médica.
Anti-inflamatório faz mal para o intestino?
Quando se fala nos efeitos adversos dos anti-inflamatórios, a maioria das pessoas pensa imediatamente em gastrite ou úlcera no estômago. Mas, afinal, anti-inflamatório faz mal para o intestino? A resposta é sim.
As evidências científicas acumuladas nas últimas décadas mostram que esses medicamentos podem causar lesões em praticamente todo o trato gastrointestinal, incluindo o intestino delgado e o cólon. Em alguns casos, essas alterações podem evoluir para complicações potencialmente graves, como sangramento, perfuração e obstrução intestinal.
A seguir, vamos entender melhor como evitar esses problemas.
Anti-inflamatório causa problema no intestino?
Para entender por que o anti-inflamatório pode causar problema no intestino, é preciso conhecer seu mecanismo de ação. Os chamados anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), grupo que inclui medicamentos como ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno e cetoprofeno, exercem seu efeito ao bloquear enzimas que reduzem a produção de prostaglandinas.
Essas substâncias participam do processo inflamatório, mas também desempenham um papel fundamental na proteção da mucosa do aparelho digestivo. Ao diminuir sua produção, os AINEs reduzem essa proteção natural e tornam o revestimento gastrointestinal mais vulnerável às lesões.
Anti-inflamatórios podem prejudicar as células do intestino
Além desse mecanismo já conhecido, pesquisas mais recentes demonstraram que os AINEs também exercem um efeito tóxico direto sobre as células intestinais. Eles alteram a integridade da barreira intestinal, aumentam a permeabilidade da mucosa, comprometem o funcionamento das mitocôndrias — estruturas responsáveis pela produção de energia das células — e favorecem um estado de inflamação local.
Como consequência, podem surgir pequenas erosões (machucados), úlceras e inflamação extensa do intestino, alterações que, muitas vezes, passam despercebidas até o aparecimento de complicações mais importantes.
Os riscos para o intestino de abusar dos anti-inflamatórios

Os riscos de tomar anti-inflamatório ficam evidentes quando olhamos para os números. Estudos mostram que entre 15% e 30% das pessoas que utilizam anti-inflamatórios de forma contínua desenvolvem úlceras do estômago e duodeno, identificadas por endoscopia.
Embora apenas uma parte delas apresente sintomas, cerca de 1% a 2% evoluem com complicações graves, como hemorragias ou perfuração do tubo digestivo.
Apesar de esses eventos serem mais conhecidos na parte mais alta do trato gastrointestinal, atualmente, sabe-se que as complicações do intestino delgado e do cólon ocorrem com frequência semelhante e têm se tornado uma causa cada vez mais importante de hospitalização.
Quem está mais vulnerável aos riscos gastrointestinais?
O risco, entretanto, não é igual para todos. Idosos, pacientes com história prévia de úlcera, pessoas que utilizam aspirina, anticoagulantes ou corticoides e aqueles que fazem uso prolongado ou em doses elevadas de anti-inflamatórios apresentam uma probabilidade significativamente maior de desenvolver complicações gastrointestinais.
Anti-inflamatório pode causar problema no intestino em quem tem doença inflamatória?
Outro grupo que merece atenção especial é o dos pacientes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.
Durante muitos anos, acreditou-se que qualquer anti-inflamatório poderia desencadear crises dessas doenças. Hoje, as evidências são mais equilibradas.
Estudos de melhor qualidade sugerem que os AINEs tradicionais realmente podem aumentar o risco de exacerbação da doença de Crohn, motivo pelo qual as principais diretrizes internacionais recomendam evitá-los, sempre que possível, nesses pacientes. Já na retocolite ulcerativa, essa associação é muito menos consistente, embora a decisão sobre seu uso deva ser sempre individualizada.
Nem todo anti-inflamatório é vilão para o intestino
Apesar de todos esses riscos, seria um erro concluir que os anti-inflamatórios devem ser evitados em qualquer situação. Na verdade, diversos medicamentos com ação anti-inflamatória constituem exatamente a base do tratamento de doenças intestinais importantes.
Os aminossalicilatos, como a mesalazina e a sulfassalazina, representam o tratamento de primeira linha para pacientes com retocolite ulcerativa leve a moderada, reduzindo a inflamação da mucosa intestinal e favorecendo sua cicatrização.
Da mesma maneira, os corticoides, como prednisona, prednisolona e budesonida, são extremamente eficazes para controlar crises tanto da doença de Crohn, quanto da retocolite ulcerativa. No entanto, o uso prolongado deve ser limitado, pelo risco de efeitos adversos sistêmicos, como osteoporose, diabetes e maior suscetibilidade a infecções.
Anti-inflamatórios são seguros para o intestino?
Também é importante destacar que nem todos os anti-inflamatórios apresentam exatamente o mesmo perfil de segurança. Os chamados inibidores seletivos da COX-2, como o celecoxibe, foram desenvolvidos com o objetivo de reduzir a toxicidade gastrointestinal.
Estudos clínicos demonstraram menor incidência de complicações digestivas em comparação com anti-inflamatórios tradicionais, mesmo em pacientes que utilizavam protetores gástricos. Ainda assim, esses medicamentos não são isentos de riscos e sua indicação também deve considerar fatores como idade, doenças cardiovasculares e outras condições clínicas.
O problema é o uso indiscriminado, não o anti-inflamatório
A principal mensagem é que o problema não está na utilização dos anti-inflamatórios, mas no uso indiscriminado. Entender os riscos de tomar anti-inflamatório não significa demonizar o medicamento, mas sim usá-lo com responsabilidade.
Esses medicamentos transformaram o tratamento da dor e de inúmeras doenças inflamatórias e continuam sendo ferramentas indispensáveis na medicina moderna. Entretanto, como ocorre com qualquer tratamento, sua utilização deve sempre resultar de uma cuidadosa avaliação entre benefícios e riscos.
Quando prescritos para a indicação correta, na menor dose eficaz e pelo menor tempo necessário, os benefícios dos anti-inflamatórios costumam superar seus riscos. Por outro lado, a automedicação, o uso repetido para dores recorrentes ou o consumo prolongado sem acompanhamento médico podem favorecer complicações importantes. Muitas delas, permanecem silenciosas até se manifestarem por sangramento, anemia, perfuração ou obstrução intestinal.
Mais do que temer os anti-inflamatórios, é fundamental utilizá-los de maneira consciente, individualizada e sempre sob orientação médica.
Um abraço a todos!
Dr. Bruno Werneck
CRM-MG 36.980
Coloproctologista RQE 16.841
Cirurgião Geral RQE 22.235




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