Cisto pilonidal: quais as causas?

A doença pilonidal, popularmente conhecida como cisto pilonidal, é um problema relativamente comum, principalmente entre adultos jovens. Ele costuma surgir naquela região entre as nádegas, próxima ao cóccix, e pode se manifestar de maneiras muito variáveis: desde pequenos orifícios na pele que praticamente não incomodam até quadros de dor intensa, abscessos e saída recorrente de secreção.
Mas uma dúvida que escuto com frequência dos pacientes é: por que isso aconteceu comigo?
Será que a pessoa já nasceu com o problema? Tem relação com excesso de pelos? É consequência de falta de higiene? Ficar muito tempo sentado pode causar a doença?
E existe uma segunda pergunta, igualmente importante: se o cisto pilonidal não estiver incomodando muito, posso simplesmente deixá-lo lá? Existe algum risco em não tratar?
É sobre essas duas questões que vamos conversar.
Afinal, o que é o cisto pilonidal?
Apesar de ainda utilizarmos muito a expressão "cisto pilonidal", talvez esse nome não seja o mais adequado para explicar o problema. Hoje, a doença pilonidal é considerada predominantemente uma doença adquirida, isto é, aparece durante a vida e não nasce com o indivíduo.
A teoria mais aceita é relativamente interessante: pelos soltos conseguem penetrar na pele da região entre as nádegas. O organismo reconhece esses pêlos como corpos estranhos a ele (o lugar de pêlo é do lado de fora da pele e não dentro dela) e inicia uma reação inflamatória.
Com o tempo, esse processo pode provocar inflamação, infecção, formação de abscessos e o aparecimento de pequenos trajetos por baixo da pele, com saída de secreção e dor local.
Portanto, podemos imaginar o cisto pilonidal como uma reação do organismo à presença de pelos que penetraram e ficaram presos abaixo da pele.
Como um pelo consegue entrar na pele?

Uma das explicações clássicas foi proposta pelo cirurgião grego George Karydakis. Segundo ele, três elementos principais participam do desenvolvimento da doença: os pêlos, a força que empurra esses pêlos contra a pele e a vulnerabilidade da própria pele.
Primeiro, precisamos dos pêlos. Pessoas com maior quantidade de pelos na região naturalmente apresentam maior exposição. Mas não é somente a quantidade que importa: espessura, rigidez, formato e extremidade do pelo também podem facilitar sua penetração.
E existe uma curiosidade: o pelo encontrado dentro de um cisto pilonidal não precisa necessariamente ter nascido naquele local. Pequenos fragmentos capilares soltos podem migrar e se acumular na região entre as nádegas.
O segundo componente é a força. Ao caminharmos, sentarmos e movimentarmos as nádegas, ocorre atrito naquela região. Em pessoas que possuem um sulco entre as nádegas mais profundo e estreito, esse movimento pode favorecer o acúmulo e a progressão dos pelos em direção aos pequenos poros da pele.
Por último, existe a própria condição da pele. Umidade, maceração, irritações, poros mais abertos, cicatrizes ou pequenas feridas podem facilitar a entrada desses pelos.
Assim, provavelmente não existe uma única causa para a doença pilonidal. O problema parece resultar da combinação entre características dos pelos, anatomia da região, forças mecânicas e vulnerabilidade da pele.
Existem pessoas com maior risco de ter cisto pilonidal?
Sim. Existem algumas características que aparecem com maior frequência entre pessoas que desenvolvem a doença pilonidal.
Entre elas estão:
sexo masculino;
adolescência e início da vida adulta;
excesso de pelos corporais;
obesidade;
sedentarismo ou atividades que exigem longos períodos sentado;
sulco entre as nádegas mais profundo;
histórico familiar de doença pilonidal;
traumatismos ou irritação repetitiva da região.
Ter fatores de risco causa a doença pilonidal?
Não. Aqui precisamos tomar um cuidado importante: fator de risco não significa causa.
Ter excesso de peso, por exemplo, não significa que obrigatoriamente a pessoa desenvolverá cisto pilonidal. Da mesma forma, uma pessoa magra, fisicamente ativa e com poucos pêlos pode apresentar o problema.
As próprias diretrizes médicas tratam muitas dessas características como associações ou fatores predisponentes, e não como relações diretas de causa e efeito.
Falta de higiene causa cisto pilonidal?
Essa afirmação precisa ser feita com bastante cuidado.
A relação entre higiene inadequada e desenvolvimento da doença pilonidal é controversa, e não existe base científica adequada para afirmar simplesmente que alguém desenvolveu cisto pilonidal porque não tomou os devidos cuidados com a higiene.
Sabemos que pelos soltos, umidade e maceração podem participar do mecanismo da doença. Manter a região limpa e seca faz parte dos cuidados locais, mas isso é diferente de atribuir a doença à "falta de higiene".
Essa distinção é importante até para evitar um estigma desnecessário sobre quem apresenta o problema.
Cisto pilonidal precisa sempre de cirurgia?
Não. Encontrar pequenos orifícios característicos da doença não significa automaticamente que a pessoa precise ser submetida a uma cirurgia.
Quando o acompanhamento sem cirurgia é suficiente
Pacientes com a doença pilonidal completamente assintomática podem, em determinadas situações, ser apenas acompanhados e orientados quanto aos cuidados locais.
A decisão de tratar depende da apresentação da doença, da existência de episódios de inflamação ou abscesso, da presença de secreção, da extensão dos trajetos e, principalmente, do impacto que o problema está causando na vida daquela pessoa.
Quais são as opções quando a cirurgia é indicada
Quando o tratamento é necessário, também não existe uma única operação adequada para todos. Atualmente, temos desde cirurgia de cisto pilonidal com técnicas convencionais até técnicas minimamente invasivas, na tentativa de resolução de cada caso.
Para finalizar
O cisto pilonidal não tem uma causa única. Ele surge da combinação entre pelos soltos que penetram na pele, forças mecânicas do dia a dia (como sentar e caminhar) e características individuais da pele e da anatomia da região entre as nádegas.
Ter fatores de risco, como excesso de peso, sedentarismo ou histórico familiar, não significa que a pessoa necessariamente vai desenvolver a doença. Da mesma forma, não existe uma relação direta comprovada entre falta de higiene e o aparecimento do cisto pilonidal. Por isso não faz sentido culpar o paciente.
Ter o diagnóstico também não significa que a cirurgia seja obrigatória. Casos assintomáticos podem apenas ser acompanhados. Quando o tratamento cirúrgico é necessário, existem opções que vão de técnicas convencionais a abordagens minimamente invasivas, e a escolha depende das características de cada caso.
A avaliação de um coloproctologista é sempre a melhor forma de entender a origem do seu caso e qual conduta faz mais sentido para você.
Até a próxima!
Dr. Bruno Werneck
CRM-MG 36.980
Coloproctologista RQE 16.841
Cirurgião Geral RQE 22.235




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