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Tratamento de hemorroida com espuma: como funciona?

há 1 dia
8 min de leitura
o tratamento de hemorroida com espuma é considerado minimamente invasivo

Quando falamos em tratamento de hemorroida, muitas pessoas ainda imaginam que existem apenas duas possibilidades: conviver com os sintomas ou fazer uma cirurgia. Felizmente, isso está longe de ser verdade.


Nas últimas décadas, surgiram diferentes tratamentos minimamente invasivos capazes de controlar os sintomas da doença hemorroidária sem a necessidade de retirar cirurgicamente as hemorroidas. 


Entre elas estão a ligadura elástica, as técnicas com laser e, mais recentemente, uma modalidade que vem ganhando espaço e acumulando evidências científicas interessantes: a escleroterapia com espuma de polidocanol.


Mas será que funciona? E como seus resultados se comparam aos tratamentos que já utilizamos há muitos anos? Vamos entender melhor isso a seguir.


O que é a escleroterapia com espuma para hemorroida?

A escleroterapia com espuma é um tratamento de hemorroida sem cirurgia em que uma pequena quantidade de substância esclerosante, preparada na forma de espuma, é injetada nas hemorroidas internas. O nome pode parecer complicado, mas o princípio é relativamente simples.


O objetivo é provocar uma reação controlada no tecido, sem “cortar” a hemorroida. Essa reação reduz o fluxo sanguíneo e promove fibrose e fixação da mucosa.

Trata-se de um procedimento rápido, realizado por via anal e que, em pacientes adequadamente selecionados, pode ser feito de forma ambulatorial.


Toda hemorroida precisa de tratamento?

Não. Hemorroidas fazem parte da anatomia normal do canal anal e só passam a ser tratadas quando aumentam, sangram, prolapsam ou provocam outros sintomas. É quando passamos a falar em doença hemorroidária.


Elas são estruturas vasculares que participam, inclusive, do mecanismo de continência. Expliquei esse conceito com mais detalhes no texto sobre mitos e verdades das hemorroidas.


Hemorroida interna ou externa: por que isso muda o tratamento

Existem hemorroidas internas e externas, e essa diferença é fundamental na escolha do tratamento.


A escleroterapia com espuma de polidocanol é destinada principalmente ao tratamento das hemorroidas internas sintomáticas, especialmente da hemorroida interna com sangramento. Portanto, não se trata de uma solução universal para qualquer paciente que tenha hemorroidas.


Por que o diagnóstico vem antes do procedimento

Antes de indicar qualquer procedimento, é necessário:

  • confirmar o diagnóstico;

  • avaliar os sintomas predominantes;

  • determinar o grau e as características da doença.


Isso é especialmente importante diante do sangramento anal. Embora as hemorroidas sejam uma causa muito frequente de sangramento, outras doenças do intestino e do canal anal também podem provocar esse sintoma.


Por isso, atribuir automaticamente todo sangramento anal às hemorroidas pode atrasar diagnósticos importantes. 


O que é o polidocanol e como ele age na hemorroida?

O polidocanol é uma substância esclerosante utilizada há muitos anos em diferentes áreas da medicina, particularmente no tratamento de doenças vasculares.


Quando entra em contato com o vaso sanguíneo, provoca uma lesão controlada do endotélio, que é a camada de células que reveste internamente o vaso. A resposta subsequente leva à redução do fluxo sanguíneo e à formação de fibrose.


Na doença hemorroidária, esse efeito é utilizado para:

  • reduzir o componente vascular da hemorroida;

  • promover uma reação fibrótica capaz de contribuir para a fixação do tecido.


O resultado esperado é principalmente a diminuição do sangramento e do prolapso.


A escleroterapia de hemorroida, na verdade, não é uma ideia nova. Diferentes substâncias esclerosantes vêm sendo utilizadas há décadas. Uma das novidades está na utilização do polidocanol na forma de espuma.


Como é feito o tratamento de hemorroida com espuma?

O tratamento é realizado através do canal anal, utilizando um anuscópio para visualizar as hemorroidas internas. A espuma de polidocanol é então injetada em pontos específicos do tecido hemorroidário.


Uma característica importante é que as aplicações são realizadas em uma região situada acima da linha pectínea, onde a sensibilidade dolorosa é menor. Por isso, o procedimento é bem tolerado pela maioria dos pacientes.


O procedimento não envolve cortes, retirada de tecido ou feridas cirúrgicas semelhantes às produzidas por uma hemorroidectomia convencional.


Em alguns pacientes, uma aplicação pode ser suficiente. Em outros, podem ser necessárias sessões adicionais.


Para quais graus de hemorroida a espuma é indicada?

Os estudos disponíveis avaliaram predominantemente pacientes com hemorroidas internas graus I, II e III. As melhores evidências de acompanhamento prolongado estão concentradas principalmente na doença hemorroidária de grau II.


De forma simplificada, os graus são:

  • grau I: hemorroidas internas que não exteriorizam pelo ânus;

  • grau II: exteriorizam durante a evacuação, mas retornam espontaneamente;

  • grau III: exteriorizam e precisam ser recolocadas manualmente;

  • grau IV: permanecem permanentemente exteriorizadas e não podem ser reduzidas.


Isso não significa que pacientes com grau III nunca possam ser tratados dessa maneira. Há estudos incluindo esse grupo. Entretanto, quanto maior e mais importante for o prolapso, maior a necessidade de individualizar a indicação.


A escolha do tratamento de hemorroida não deve, portanto, ser determinada apenas pelo grau da hemorroida. Também precisam ser considerados:

  • sangramento;

  • prolapso;

  • componente externo;

  • frequência dos sintomas;

  • tratamentos anteriores;

  • expectativas do paciente.


O que os estudos mostram sobre a espuma de polidocanol?

Os resultados publicados nos últimos anos são bastante interessantes. Em comparação direta com a ligadura elástica, a espuma apresentou maior taxa de sucesso completo, menos recorrência em um ano e menos complicações.


Espuma de polidocanol x ligadura elástica: o estudo randomizado

Um estudo randomizado publicado na Diseases of the Colon & Rectum comparou diretamente a escleroterapia com espuma de polidocanol com a ligadura elástica, uma das técnicas ambulatoriais mais utilizadas no mundo. Foram estudados 120 pacientes com hemorroidas graus I, II ou III.


Os principais resultados foram:

  • Sucesso terapêutico: 93,3% com espuma de polidocanol e 85% com ligadura elástica. Essa diferença, isoladamente, não atingiu significância estatística.

  • Sucesso completo: 88,3% com espuma contra 66,7% com ligadura, favorecendo a espuma.

  • Número de sessões: foram necessárias menos sessões, em média, no grupo tratado com espuma.

  • Recorrência após um ano: 16,1% com polidocanol e 41,2% com ligadura elástica.

  • Complicações: 10% no grupo da espuma contra 30% no da ligadura.


A grande maioria das complicações observadas nos dois grupos foi considerada leve, e não ocorreram complicações graves no estudo.


Os resultados se mantêm em longo prazo?

Os dados disponíveis indicam que sim, em pacientes com hemorroida grau II acompanhados por até três anos. Essa é uma das perguntas mais importantes diante de qualquer novo tratamento para hemorroidas.


Um estudo multicêntrico acompanhou 183 pacientes com hemorroidas grau II tratados com espuma de polidocanol a 3%. O tratamento foi considerado bem-sucedido em 95,6% dos pacientes após um ano e em 90,2% após três anos.


Além disso, houve melhora significativa e persistente tanto dos sintomas quanto dos indicadores de qualidade de vida relacionados à doença hemorroidária.


Espuma ou ligadura elástica: qual é melhor?

Ainda é cedo para afirmar que a espuma vai substituir a ligadura elástica, mas ela já ocupa um lugar de destaque entre as modalidades de terapia para a doença hemorroidária. Essa provavelmente será uma das principais discussões sobre a técnica nos próximos anos.

A ligadura elástica possui uma enorme experiência acumulada e continua sendo uma das principais opções ambulatoriais para hemorroidas internas.


A diretriz de 2024 da American Society of Colon and Rectal Surgeons (ASCRS) considera os procedimentos ambulatoriais apropriados para a maioria dos pacientes com hemorroidas sintomáticas graus I e II. Também os considera apropriados para alguns pacientes selecionados com grau III após falha do tratamento conservador. Entre esses procedimentos estão a ligadura elástica e a escleroterapia.


A mesma diretriz já menciona especificamente a espuma de polidocanol e destaca os resultados do estudo randomizado que a comparou com a ligadura elástica.


Esse é um tratamento de hemorroida sem dor?


o tratamento de hemorroida com espuma não é uma cirurgia
O tratamento de hemorroida com espuma é considerado minimamente invasivo

A escleroterapia com espuma tende a permitir uma recuperação mais simples e retorno relativamente rápido às atividades habituais, porque não há ressecção da hemorroida. Mas “minimamente invasivo” não significa “totalmente isento de desconforto ou complicações”.


A hemorroidectomia convencional continua sendo um tratamento extremamente eficaz e necessário em determinadas situações, particularmente em doenças mais avançadas. Entretanto, a dor pós-operatória e o período de recuperação estão entre as principais preocupações relacionadas à cirurgia. 


Os tratamentos ambulatoriais procuram justamente evitar a criação de grandes feridas no canal anal. Na escleroterapia com espuma, a proposta é produzir uma reação localizada no tecido tratado.


Ainda assim, dor, sangramento e outros eventos adversos podem ocorrer após a escleroterapia. A diretriz da ASCRS, ao analisar os estudos de escleroterapia injetável de maneira geral (e não exclusivamente a técnica moderna com espuma de polidocanol), descreve dor pós-procedimento e sangramento entre as complicações possíveis.


A espuma pode ser usada em quem toma anticoagulante?

Essa é uma área particularmente interessante de investigação, mas a decisão depende de condições clínicas individuais. O tratamento das hemorroidas em pacientes que utilizam anticoagulantes ou antiagregantes pode ser desafiador.


Um estudo prospectivo multicêntrico avaliou 228 pacientes, dos quais 73 apresentavam distúrbios hemorrágicos. Nesse grupo estavam incluídos também pacientes que utilizavam medicamentos antitrombóticos, sem interrupção do tratamento para a realização da escleroterapia.


Os resultados foram:

  • taxa global de sucesso terapêutico de 93,4%;

  • complicações em 11,4% dos pacientes, sendo a maioria leve;

  • sangramento relacionado ao procedimento em 4,8%;

  • nenhuma diferença significativa na eficácia, recorrência ou taxa de complicações entre pacientes com e sem distúrbios hemorrágicos.


Mas aqui também é necessário cuidado. Esse estudo não significa que todo paciente anticoagulado possa simplesmente ser submetido ao procedimento sem qualquer alteração da medicação.


Esse tipo de decisão deve considerar:

  • o medicamento utilizado;

  • a indicação da anticoagulação;

  • o risco trombótico;

  • o risco hemorrágico;

  • as condições clínicas individuais.


O que dizem as evidências mais recentes?

Em 2025 foi publicada uma nova revisão sistemática acompanhada de uma pesquisa internacional entre especialistas e recomendações práticas para utilização da espuma de polidocanol. A revisão identificou 20 estudos sobre a técnica.


Um dos pontos interessantes dessa publicação é mostrar que a escleroterapia com espuma deixou de ser apenas uma técnica experimental descrita em pequenos trabalhos. Ela passou a ser utilizada em diferentes centros especializados.


Ao mesmo tempo, os autores identificaram algo que ainda precisa melhorar. Existe variação considerável entre os serviços quanto a:

  • seleção dos pacientes;

  • concentração utilizada;

  • preparo da espuma;

  • técnica de aplicação;

  • acompanhamento após o procedimento.


Essa ausência de padronização é uma das razões pelas quais ainda precisamos de estudos maiores e metodologicamente robustos.


Uma nova ferramenta no tratamento de hemorroida, e não uma solução milagrosa

Tenho acompanhado com bastante interesse a evolução dos tratamentos minimamente invasivos para doença hemorroidária.


A escleroterapia com espuma de polidocanol reúne várias características desejáveis:

  • não exige retirada do tecido hemorroidário;

  • pode ser realizada de forma ambulatorial;

  • é repetível;

  • apresenta índices elevados de controle dos sintomas nos estudos disponíveis.


Os resultados comparativos com a ligadura elástica são particularmente interessantes, e os dados de acompanhamento por até três anos sugerem que o benefício pode ser duradouro em pacientes adequadamente selecionados.


Mas é importante manter a perspectiva científica. Ainda precisamos de estudos randomizados maiores, realizados em diferentes centros e com acompanhamento prolongado, para definir com maior precisão:

  • quais pacientes são os melhores candidatos;

  • qual a técnica ideal de aplicação;

  • como seus resultados se comparam em longo prazo com outras opções minimamente invasivas.


Portanto, a espuma de polidocanol não deve ser apresentada como uma técnica capaz de substituir todos os demais tratamentos. Ela representa uma nova ferramenta dentro de uma estratégia cada vez mais personalizada e menos invasiva para o tratamento da doença hemorroidária.


E quanto mais opções eficazes e seguras tivermos, maior será nossa capacidade de escolher o tratamento adequado para cada paciente.


Bom fim de semana, queridos leitores!

Um abraço,


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980 

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


Leia mais:


Referências científicas

  1. Hawkins AT, Davis BR, Bhama AR, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for the Management of Hemorrhoids. Diseases of the Colon & Rectum. 2024;67(5):614-623. doi.org/10.1097/DCR.0000000000003276

  2. Salgueiro P, Garrido M, Santos RG, Pedroto I, Castro-Poças FM. Polidocanol Foam Sclerotherapy Versus Rubber Band Ligation in Hemorrhoidal Disease Grades I/II/III: Randomized Trial. Diseases of the Colon & Rectum. 2022;65(7). doi.org/10.1097/DCR.0000000000002117

  3. Gallo G, Picciariello A, Pietroletti R, et al. Sclerotherapy with 3% polidocanol foam to treat second-degree haemorrhoidal disease: Three-year follow-up of a multicentre, single arm, IDEAL phase 2b trial. Colorectal Disease. 2023;25(3):386-395. doi.org/10.1111/codi.16380

  4. Patel J, McKechnie T, Wu K, et al. HEmoRhoidal disease management with Band ligation versus polidocanol Sclerotherapy: a systematic review and meta-analysis (the HerBS Review). International Journal of Colorectal Disease. 2023;38:112. doi.org/10.1007/s00384-023-04394-w

  5. Salgueiro P, Rei A, Garrido M, et al. Polidocanol foam sclerotherapy in the treatment of hemorrhoidal disease in patients with bleeding disorders: a multicenter, prospective, cohort study. Techniques in Coloproctology. 2022;26(8):615-625. doi.org/10.1007/s10151-022-02600-5

  6. Gallo G, Grossi U, De Simone V, et al. Real-world use of polidocanol foam sclerotherapy for hemorrhoidal disease: insights from an international survey and systematic review with clinical practice recommendations. Updates in Surgery. 2025;77(5):1439-1450. doi.org/10.1007/s13304-025-02258-2


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