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Colonoscopia vira cirurgia? Entenda quando isso acontece

9 de set.
4 min de leitura

A colonoscopia foi um dos principais atrativos para eu me tornar coloproctologista. Sou fascinado por esse exame, que tem um papel fundamental na prevenção, identificação e tratamento das doenças do intestino.


Quando converso com os pacientes e menciono a necessidade de realizar esse procedimento, muitos demonstram que já ouviram falar do assunto e se colocam na defensiva.

"Me falaram que o preparo é horrível", "E o risco de perfurar o intestino?", "Quem procura demais, acha" são frases que escuto com frequência. Não é raro que o medo da colonoscopia apareça antes mesmo de o exame ser marcado.


Bom, para muitas pessoas, realizar uma colonoscopia realmente não é uma das experiências mais agradáveis. Mas, como já mencionei em posts anteriores, a colonoscopia salva vidas.

Isso porque é um exame que atua na prevenção ao câncer de intestino, no tratamento de lesões intestinais, além de ajudar o médico a identificar e classificar doenças e suas complicações.


O que poucos pacientes sabem é que, em alguns casos, essa mesma colonoscopia pode virar uma cirurgia, ali mesmo, no momento do exame. Vou te explicar quando e por que isso acontece.


O que é a colonoscopia terapêutica?

A colonoscopia terapêutica acontece quando o exame deixa de servir só para observar o intestino e passa a tratar, ali mesmo, uma lesão encontrada durante o procedimento. Exame e tratamento acontecem no mesmo momento, na mesma sala.


Entre os procedimentos mais comuns realizados durante uma colonoscopia terapêutica estão:

  • Remoção de pólipos (polipectomia), a mais frequente delas;

  • Coagulação de pontos de sangramento no intestino;

  • Dilatação de estreitamentos (estenoses) da parede intestinal.


Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a colonoscopia é considerada o método padrão-ouro para o diagnóstico do câncer colorretal. Estudos já comprovaram que essa remoção de pólipos reduz tanto a incidência quanto a mortalidade por câncer de cólon e reto.


Ou seja, a colonoscopia terapêutica é considerada uma prevenção secundária do câncer de intestino, porque detecta e trata lesões em estágio inicial ou precursoras, impedindo a evolução da doença.


Quando a colonoscopia deixa de ser exame e vira cirurgia?


A colonoscopia pode ser mais que um exame, pode ser uma cirurgia
A colonoscopia pode ser mais que um exame, pode ser uma cirurgia

A colonoscopia vira cirurgia quando o médico encontra, durante a avaliação do intestino, uma doença ou lesão que exige tratamento endoscópico imediato. A partir desse momento, tecnicamente, o que estava sendo feito como exame passa a ser um procedimento cirúrgico.


Muitos pacientes não entendem bem essa diferença entre a colonoscopia como exame e a colonoscopia como cirurgia. Por isso, vale saber que o examinador às vezes recua e decide repetir a colonoscopia em outro momento.


Isso costuma acontecer para que haja maior disponibilidade de equipamentos e melhor orientação do paciente e da família. Quando isso ocorre, o médico está pensando na sua segurança.


O caso do pólipo grande

Não faz muito tempo, encontrei na minha clínica um caso assim. Uma pessoa me procurou para tratar uma lesão que não havia sido removida de uma vez por um colega coloproctologista.


Ao olhar o laudo do exame, vi que se tratava de um pólipo grande, com alto risco de perfuração e possibilidade de já ser um câncer inicial. Pólipos assim pedem mais cautela do que pólipos pequenos, exatamente pelo potencial de já terem sofrido alguma transformação.


De acordo com diretrizes internacionais de acompanhamento pós-polipectomia, lesões maiores que 2 cm exigem mais cuidado no seguimento. Quando são removidas de forma fragmentada, pedem reavaliação em até seis meses, pelo risco de tecido remanescente.

É esse tipo de cuidado técnico que orienta a decisão de recuar durante o exame.


Conversei longamente com essa pessoa e expliquei que a conduta do colega estava correta. Uma série de fatores precisava ser adequadamente resolvida antes de se tentar o tratamento endoscópico daquela lesão.


O que faz a colonoscopia virar uma cirurgia?

Alguns fatores determinam se um exame de colonoscopia vai virar ou não uma cirurgia. Veja os principais:


  • Disponibilidade de equipamentos: é vital que todos os instrumentos necessários para tratar um problema complexo estejam disponíveis, o que nem sempre é o caso durante um exame de rotina;

  • Preparo da equipe para complicações: em caso de intercorrências, toda a equipe médica precisa estar pronta para tratá-las com segurança;

  • Consentimento e informação do paciente: o paciente nem sempre sai de casa entendendo que pode ser submetido a uma cirurgia, assim como seus familiares, que podem não estar cientes do que isso representa.


A estrutura do local também pesa nessa decisão. É por isso que, em alguns casos, oriento a realização do exame em ambiente hospitalar, especialmente quando já existe suspeita de uma lesão mais complexa.


Para resumir, o procedimento de colonoscopia diagnóstica é diferente da abordagem terapêutica, assim como o tempo, os materiais e a equipe envolvidos. Além do mais, o próprio paciente precisa estar preparado para essa possibilidade, e isso não pode ser negligenciado.


Por que o preparo da colonoscopia pesa tanto nesse processo?

Para funcionar como tratamento, e não só como exame, a colonoscopia precisa enxergar bem cada centímetro do intestino. É aí que entra o preparo: os laxativos e a dieta especial dos dias anteriores, que servem para limpar completamente o cólon.


Quando esse preparo é feito corretamente, a parede do intestino fica bem visível, sem resíduos escondendo pólipos ou lesões pequenas. É por isso que a qualidade das imagens da colonoscopia está diretamente associada à qualidade do preparo, e não só à experiência do médico.


Conte com um médico de confiança

Nas mãos de um profissional competente, os riscos da colonoscopia, seja ela diagnóstica ou terapêutica, são baixos. Mesmo assim, prudência nunca é demais.


Quando um médico recua de certas decisões durante o exame, na maioria das vezes, é justamente para evitar complicações inadvertidas e garantir o melhor tratamento possível para você. Pensem nisso.


Um abraço a todos!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980 

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


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