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Probióticos, prebióticos e simbióticos: você sabe a diferença?

há 2 dias
6 min de leitura

Muitos pacientes me pedem uma maneira simplificada de entender o microbioma intestinal e sua relação com os nutrientes ingeridos. O que é bom para o intestino? O que é ruim? E, quase sempre, a dúvida sobre a diferença entre probiótico e prebiótico aparece na conversa.

São perguntas simples, mas com resposta que envolve um processo mais complexo e ainda não totalmente conhecido pela medicina.


O que se sabe é que, cada vez mais, o equilíbrio entre os microrganismos presentes no nosso trato digestivo e os nutrientes têm papel muito importante na saúde de cada pessoa. Assim, abordamos hoje a diferença entre probióticos, prebióticos e simbióticos, e o que se sabe sobre sua influência na saúde intestinal.


O que é a microbiota intestinal?

Como já explicamos em outro texto, sobre o que é um microbioma intestinal saudável, o microbioma é o conjunto de tudo aquilo que povoa a superfície mucosa intestinal, sejam bactérias, fungos ou vírus.


O delicado equilíbrio entre a qualidade e a quantidade de nutrientes, fatores ambientais, emocionais e medicamentos vai determinar a manutenção de um estado de funcionamento adequado do trato gastrointestinal.


Esses microrganismos se concentram principalmente no cólon, o intestino grosso. Estima-se que o intestino de um adulto abrigue mais de 40 trilhões de células bacterianas, de centenas de espécies, e cada pessoa tem um padrão próprio. Mesmo assim, a ciência ainda não consegue definir com precisão como seria uma microbiota "saudável".


Muito se fala sobre o que poderia ser feito para se ter um funcionamento melhor do organismo, e as palavras prebióticos, probióticos e simbióticos vêm à tona. Por isso, vamos descobrir um pouco mais sobre eles?


Qual a diferença entre probiótico e prebiótico?

Em uma frase: o probiótico é o microrganismo vivo; o prebiótico é o alimento que nutre os microrganismos benéficos que já vivem no intestino. Na prática:


  • Probióticos: microrganismos vivos que, administrados em quantidade adequada, trazem benefícios à saúde.

  • Prebióticos: substâncias que o nosso corpo não digere e que servem de alimento para as bactérias benéficas que já vivem no intestino, ajudando-as a se multiplicar e a trabalhar a favor da saúde (consenso ISAPP, 2017).

  • Simbióticos: a associação de probióticos e prebióticos, ou seja, as bactérias benéficas junto com o alimento delas.


Veremos cada um detalhadamente a seguir.


O que são prebióticos?

Os prebióticos são ingredientes alimentares não digeríveis pelo ser humano e que, em sua maioria, são constituídos por carboidratos complexos. Eles favorecem a multiplicação ou a atividade de microrganismos benéficos que já vivem no cólon.


Por não serem digeríveis, os prebióticos passam pelo intestino delgado e chegam ao intestino grosso, onde são metabolizados pelas bactérias "do bem".


Os prebióticos mais conhecidos são:


  • Inulina e oligofrutose (FOS), presentes naturalmente em alimentos como trigo, cebola, banana, mel, alho e alho-poró;

  • Galacto-oligossacarídeos (GOS);

  • Lactulose, usada também como medicamento para o intestino preso;

  • Oligossacarídeos do leite materno.


Como os prebióticos agem no organismo?

Ao serem fermentados pelas bactérias do cólon, os prebióticos geram compostos como os ácidos graxos de cadeia curta. A fermentação da oligofrutose pode aumentar as bifidobactérias, a absorção de cálcio e o volume das fezes, acelerar o trânsito intestinal e reduzir a gordura no sangue. Esses efeitos variam de pessoa para pessoa, conforme a dieta e a microbiota de cada um.


O uso clínico dos prebióticos está em íntima relação com os probióticos, em busca da manutenção da saúde intestinal e geral. Na prevenção do câncer colorretal, os resultados animadores vêm de estudos em animais; em humanos, os dados ainda são limitados.


O que são probióticos?

Os probióticos são microrganismos vivos (geralmente bactérias "do bem") que, quando ingeridos em quantidade adequada, trazem benefício à saúde. Eles podem atuar de diferentes formas:


  • Competindo com microrganismos causadores de doenças;

  • Ajudando a regular o trânsito intestinal;

  • Reforçando a barreira de proteção do intestino;

  • Modulando a resposta imunológica e a inflamação.


As variedades mais encontradas de probióticos são os lactobacilos e as bifidobactérias. Também são usados o Streptococcus thermophilus, presente no iogurte, e a levedura Saccharomyces boulardii.


O efeito de um probiótico depende da cepa (a "linhagem" específica do microrganismo) e da dose. Por isso, o benefício comprovado de um produto não vale automaticamente para outro, mesmo que tenham a mesma espécie. No Brasil, a Anvisa exige comprovação de segurança e benefício para cada linhagem usada em alimentos.


Probióticos, quando bem indicados, ajudam no funcionamento do intestino
Probióticos, quando bem indicados, ajudam no funcionamento do intestino

Como os probióticos agem no organismo?

O objetivo da utilização de probióticos é principalmente regulatório, isto é, favorecer uma população de microrganismos mais benéfica. Isso acontece em parte pela mudança do ambiente local: muitos probióticos aumentam a produção de ácidos graxos de cadeia curta e deixam o conteúdo do cólon mais ácido, condição desfavorável aos patógenos.


Os probióticos nem sempre se instalam de forma duradoura no intestino. Usados sozinhos, seus efeitos sobre a microbiota costumam ser variáveis e, muitas vezes, passageiros. O consumo de fibras e prebióticos ajuda a sustentá-los.


Para que servem os probióticos, segundo as diretrizes?

A aplicação clínica dos probióticos tem como objetivo tratar ou prevenir casos como os listados abaixo. O grau de evidência, porém, muda bastante de uma situação para outra, e as sociedades médicas nem sempre concordam.


  • Diarreia associada ao uso de antibióticos: metanálises mostram efeito moderado na prevenção em crianças, adultos e idosos. A Associação Americana de Gastroenterologia sugere cepas específicas para prevenir a infecção por Clostridioides difficile em quem toma antibiótico.


  • Diarreias infecciosas: algumas cepas encurtam a diarreia aguda infecciosa em crianças em cerca de 1 dia. A AGA, por outro lado, sugere não usar probióticos em crianças com gastroenterite aguda. Você pode se interessar também pelo artigo quando a diarreia aguda precisa de antibiótico.


  • Intolerância à lactose: as culturas vivas do iogurte melhoram a digestão da lactose e reduzem os sintomas. Leia mais sobre intolerância à lactose.


  • Doenças inflamatórias intestinais: há evidência para a pouchite, inflamação que pode surgir após a cirurgia da retocolite ulcerativa. Na retocolite, a evidência é de baixa certeza; na doença de Crohn, não há evidência de benefício. A AGA recomenda o uso nessas doenças só dentro de estudos clínicos. Já escrevi sobre os sinais de uma doença inflamatória intestinal.


  • Síndrome do intestino irritável: estudos com cepas específicas mostram redução de inchaço e gases, mas o Colégio Americano de Gastroenterologia sugere não usar probióticos para os sintomas gerais da síndrome. Também já falamos sobre isso em probióticos e síndrome do intestino irritável.


Estudos sugerem a aplicação de probióticos com objetivo de prevenção de cânceres, todavia, essa relação não está bem definida e não deve ser aplicada sem evidências mais robustas.


Há evidências sugestivas de que algumas cepas melhorem a resposta imunológica, e seus efeitos em condições como diabetes tipo 2 e excesso de peso ainda estão em estudo.


O que são simbióticos?

Já os simbióticos são suplementos nutricionais que combinam probióticos e prebióticos para obter uma microbiota mais saudável. Para sua função, é necessário que as quantidades de cada uma das partes sejam adequadas.


Assim, é preciso haver componente probiótico suficiente para sua efetiva implantação e sobrevivência na parede do intestino, junto com prebióticos que permitam sua nutrição. O tipo e a quantidade de prebiótico utilizado variam de acordo com o tipo de microrganismo.


Desde 2020, o consenso da ISAPP divide os simbióticos em dois tipos:

  • Complementares: misturam um probiótico e um prebiótico que já funcionam bem separadamente, em doses com benefício comprovado.

  • Sinérgicos: combinam um microrganismo vivo com uma substância escolhida para ser usada justamente por ele; o benefício documentado é o da dupla.


Como os simbióticos agem no organismo?

A aplicação clínica dos simbióticos não é diferente com relação aos tópicos anteriores. Em outras palavras, os autores de estudos relatam que a utilização dos simbióticos permitiria um efeito mais duradouro e efetivo, mas ainda há uma carência importante na literatura científica de provas que confirmem essas suposições.


Conclusão sobre prebióticos, probióticos e simbióticos

Como pudemos observar, há indicações para cada tipo de composto prebiótico e probiótico, mas sua utilização em pessoas saudáveis ainda carece de indicação mais embasada. Na opinião deste autor que vos tecla, tomar esses suplementos para sempre, sem um motivo bem definido, não faz muito sentido.


Em casos específicos, em que nitidamente há um desequilíbrio do microbioma, o uso racional desses suplementos pode auxiliar muito na recuperação do equilíbrio do organismo. É o caso, por exemplo, de quem está em uso de antibióticos, de algumas diarreias infecciosas e da pouchite.


Para a maioria das pessoas saudáveis, os riscos são baixos. Já pessoas com imunidade comprometida ou doenças graves só devem usar cepas com segurança comprovada para elas. A qualidade dos produtos também varia, e alguns não contêm a quantidade de microrganismos vivos informada no rótulo.


Por isso, a escolha do probiótico, da cepa e do tempo de uso deve ser individualizada e orientada por um especialista.


De toda forma, cuidado com a extrapolação! Não é porque não faz mal e ajuda em algumas condições que um suplemento é bom para tudo.

Grande abraço, e ótima semana!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980 

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


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