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Cisto pilonidal: o que acontece se eu não tratar?

  • há 17 horas
  • 5 min de leitura
Não tratar um cisto pilonidal pode trazer algumas complicações

Você percebeu um pequeno orifício ou já teve algum episódio de secreção na região entre as nádegas, perto do cóccix. Como não dói muito ou já melhorou sozinho, ficou com aquela dúvida: será que dá para simplesmente deixar assim?


É uma pergunta que escuto com frequência no consultório. Afinal, se o cisto pilonidal não está incomodando tanto, existe realmente algum risco em não tratar?


Se você ainda não sabe por que o cisto pilonidal aparece, vale conferir antes o artigo “Cisto pilonidal: quais são as causas?”. Aqui, o foco é outro: entender o que pode acontecer quando um cisto pilonidal sintomático fica sem tratamento: desde os quadros mais comuns até as complicações mais raras, como a possibilidade de virar câncer.


E se eu tiver sintomas de cisto pilonidal e não tratar?

A doença pilonidal sintomática frequentemente apresenta um comportamento crônico e recorrente.


Isso significa que algumas pessoas passam por períodos em que aparentemente está tudo bem e, algum tempo depois, apresentam novamente inflamação, dor ou secreção.


Uma das possíveis complicações é a formação de um abscesso pilonidal. Nesse caso, ocorre acúmulo de pus sob a pele, provocando geralmente dor importante, inchaço, vermelhidão e dificuldade até mesmo para sentar. Em algumas situações, o abscesso se rompe espontaneamente e elimina secreção; em outras, precisa ser drenado cirurgicamente. Depois que o abscesso melhora, entretanto, a doença pilonidal pode permanecer.


O cisto pilonidal pode formar túneis por baixo da pele?

Pode. Quando a inflamação persiste durante muito tempo ou apresenta episódios repetidos, podem se formar trajetos subcutâneos, ligando os pequenos orifícios da linha média a outras aberturas na pele.


É comum o paciente dizer: "Doutor, aparece um furinho, começa a sair secreção, depois fecha e, alguns meses depois, abre novamente." Essa história é bastante característica da doença crônica.


Com o passar do tempo, alguns pacientes podem desenvolver trajetos mais extensos, múltiplos orifícios e feridas crônicas. Isso não acontece obrigatoriamente com todos, mas explica por que não devemos simplesmente ignorar uma doença que está repetidamente inflamando ou drenando secreção.


O cisto pilonidal pode causar uma infecção mais grave?

Na maioria das vezes, a doença permanece localizada. Entretanto, durante os episódios infecciosos, pode ocorrer inflamação dos tecidos ao redor, inclusive celulite, com aumento da vermelhidão, dor e extensão do processo inflamatório.


Além disso, nem toda ferida ou secreção nessa região é cisto pilonidal, algumas doenças dermatológicas, e até manifestações da doença de Crohn podem produzir alterações semelhantes. Por isso, principalmente nos casos atípicos, recorrentes ou muito próximos ao ânus, uma avaliação adequada é fundamental.


Cisto pilonidal pode virar câncer?

Pode, mas isso é extremamente raro.


Existem relatos na literatura médica de transformação maligna em pacientes com doença pilonidal crônica de longa duração. O tumor mais frequentemente descrito é o carcinoma de células escamosas, um tipo de câncer de pele.


Algumas publicações estimam essa ocorrência em aproximadamente 0,1% dos casos crônicos, embora seja importante interpretar esse número com cautela porque estamos falando de uma complicação tão rara que grande parte das informações disponíveis vem de relatos e pequenas séries de casos.


Quando ocorre, geralmente existe uma história de muitos anos de inflamação recorrente, secreção e feridas crônicas.


Portanto, não quero que ninguém termine este texto imaginando que ter um cisto pilonidal significa estar correndo um risco importante de câncer, porque não significa. A transformação maligna é uma exceção.


Mas uma ferida crônica que não cicatriza, apresenta crescimento progressivo, sangramento diferente do habitual, secreção persistente ou mudança importante de aspecto merece avaliação médica. Nesses casos, pode ser necessária uma biópsia para esclarecer o diagnóstico.


Não tratar o cisto pilonidal também pode afetar a qualidade de vida


Um cisto pilonidal inflamado pode trazer grande desconforto
O cisto pilonidal pode causar dificuldade para sentar, praticar atividade física, trabalhar e constrangimento em situações sociais ou íntimas.

Talvez essa seja uma consequência muito mais relevante no dia a dia do que as complicações extremamente raras.


Imagine uma pessoa jovem que passa repetidamente por períodos de dor, secreção e preocupação com manchas na roupa. Ela pode ter dificuldade para sentar, praticar atividade física, trabalhar e até se sentir constrangida em situações sociais ou íntimas.

Estudos que avaliam pacientes com doença pilonidal mostram que dor, desconforto e aspectos psicológicos podem afetar significativamente a qualidade de vida.


Portanto, ao decidir se um cisto pilonidal deve ou não ser tratado, não devemos olhar apenas para o tamanho da lesão. Precisamos entender quanto aquela doença interfere na vida do paciente.


Existe alguma maneira de prevenir o cisto pilonidal?

Como não existe uma causa única, também não existe uma estratégia capaz de garantir completamente que a doença nunca aparecerá ou nunca retornará.


Entretanto, algumas medidas podem ser discutidas individualmente, principalmente em pacientes que já apresentaram a doença: controle do excesso de peso, redução de períodos prolongados sentado quando possível, cuidados para manter a região limpa e seca e estratégias de controle dos pelos.


Mas essas recomendações precisam ser individualizadas. Não devemos transformar fatores associados à doença em culpa do paciente. Uma pessoa pode seguir todos esses cuidados e ainda assim desenvolver cisto pilonidal.


Cisto pilonidal: quando devo procurar um coloproctologista?

Vale a pena procurar avaliação se você percebeu:

  • um pequeno orifício entre as nádegas;

  • saída repetitiva de secreção;

  • sangramento, inchaço ou dor próxima ao cóccix;

  • uma ferida antiga que não cicatriza ou que mudou recentemente de aparência.


Nos quadros com dor intensa, aumento rápido do volume, vermelhidão ou saída de pus, a avaliação deve ser mais rápida, pois pode existir um abscesso que necessite de drenagem.


Para finalizar

O cisto pilonidal é muito mais interessante e complexo do que o antigo conceito de um simples "cisto no cóccix".


Não existe uma única causa definida e, principalmente, não faz sentido culpar o paciente pelo aparecimento da doença. Também não significa que toda pessoa que tenha cisto pilonidal precise ser operada imediatamente.


Por outro lado, quando existem episódios repetidos de inflamação, abscessos, secreção ou feridas que não cicatrizam, simplesmente conviver indefinidamente com o problema pode não ser a melhor escolha.


Na maioria das pessoas, o maior risco não é uma complicação grave, mas entrar em um ciclo de inflamação, melhora, nova inflamação e drenagem crônica, com impacto progressivo na qualidade de vida.


E quanto ao câncer? Ele existe como complicação descrita da doença pilonidal crônica, mas é extremamente raro. A mensagem não deve ser de medo, mas de atenção: uma doença crônica que muda de comportamento ou uma ferida que não cicatriza merece ser avaliada.


A melhor decisão sobre acompanhar ou tratar deve ser tomada após avaliação individualizada, considerando as características da doença, os sintomas e o impacto na vida de cada paciente.


Um grande abraço e até o próximo artigo!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980 

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


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