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Cirurgia de hemorroida, fístula e fissura: 8 mitos desvendados

há 29 minutos
9 min de leitura
mitos sobre cirurgia de hemorroida, fístula e fissura anal prejudicam a busca por tratamento adequado

Dor intensa, hemorroidas que voltam, risco de incontinência: o que as evidências científicas realmente mostram sobre essas condições?


Olá, caros leitores e leitoras!


Quem acompanha nosso blog sabe que já conversamos diversas vezes sobre os tratamentos das hemorroidas, fissuras e fístulas anais. Entretanto, mesmo com os avanços da medicina e a quantidade de informações disponíveis, ainda existem muitos mitos sobre a cirurgia de hemorroida, de fístula e de fissura anal.


No consultório, é comum receber pacientes que convivem há anos com dor, sangramento ou secreção anal, mas evitam procurar tratamento por medo da cirurgia. Alguns ouviram histórias assustadoras de amigos ou familiares. Outros pesquisaram na internet e encontraram relatos de complicações, dores intensas e resultados insatisfatórios.


É compreensível que essas experiências provoquem preocupação. Afinal, estamos falando de uma região sensível, diretamente relacionada à evacuação, à continência fecal e à qualidade de vida.


Mas será que essas histórias representam a realidade da maioria dos pacientes?


A resposta é não.


Isso não significa que as cirurgias anais sejam isentas de riscos ou que todas as técnicas apresentem os mesmos resultados. Pelo contrário: existem diferenças importantes entre os procedimentos, e conhecê-las é fundamental para tomar uma decisão consciente.


Por isso, no texto de hoje, vamos esclarecer oito mitos frequentes sobre as cirurgias de hemorroidas, fissuras e fístulas anais, utilizando o que há de evidência científica sobre o assunto.


1. Quem faz cirurgia anal nunca mais terá uma vida normal nem relações sexuais?


MITO!

Uma das preocupações mais comuns entre os pacientes é a possibilidade de a cirurgia provocar limitações permanentes nas atividades diárias, na prática de exercícios físicos ou na vida sexual.


Na maioria dos casos, isso não acontece.


Após o período de recuperação, grande parte dos pacientes consegue retomar suas atividades habituais. Aliás, quando a cirurgia resolve sintomas como dor, sangramento e secreção persistente, a qualidade de vida pode melhorar significativamente.


Entretanto, precisamos fazer uma ressalva importante sobre a função sexual, especialmente nas cirurgias de fístula anal.


A cirurgia de fístula anal impacta na função sexual?

Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo 18 estudos, avaliou as repercussões dessas cirurgias sobre a sexualidade (Journal of Gastrointestinal Surgery, 2026). Os pesquisadores observaram melhora da função erétil masculina após a resolução da fístula, mas os resultados entre as mulheres foram diferentes.


Em algumas pacientes, houve persistência ou piora das dificuldades sexuais, incluindo dor durante as relações, especialmente em situações envolvendo trajetos fistulosos na região anterior do ânus.


É importante compreender que esses resultados não significam que a disfunção sexual seja frequente em mulheres submetidas à cirurgia de fístula. Os estudos apresentam diferenças entre si e não permitem prever individualmente esse risco.


A mensagem é que a vida sexual precisa fazer parte da conversa entre médico e paciente antes da cirurgia.


O retorno às relações sexuais deve respeitar a cicatrização, o desconforto e as particularidades do procedimento realizado. Não existe um prazo único que sirva para todas as pessoas.


2. Pomadas resolvem definitivamente as hemorroidas, fissuras e fístulas anais?


DEPENDE DA DOENÇA!

Esse é um excelente exemplo de como uma informação parcialmente verdadeira pode acabar confundindo os pacientes.

Vamos separar as três situações.


Nas hemorroidas

Nas hemorroidas, pomadas podem aliviar temporariamente sintomas como coceira, irritação e desconforto. Entretanto, não corrigem a exteriorização hemorroidária nem eliminam a doença.


Muitos pacientes conseguem controlar os sintomas com mudanças alimentares, fibras, melhora dos hábitos evacuatórios e tratamentos ambulatoriais, sem necessidade de cirurgia.


Nas fissuras anais

Nas fissuras anais, a situação é diferente.


Pomadas contendo medicamentos como diltiazem ou nitroglicerina podem promover a cicatrização, inclusive de fissuras crônicas. Elas atuam reduzindo a pressão do esfíncter anal interno e melhorando as condições para a cicatrização.


Portanto, nesse caso, o tratamento tópico pode realmente resolver o problema, embora não funcione para todos os pacientes.


Nas fístulas anais

Já nas fístulas anais de origem criptoglandular, a utilização isolada de pomadas ou medicamentos não consegue eliminar o trajeto que comunica o canal anal à pele.


É possível diminuir temporariamente a inflamação ou a secreção, mas isso não representa a cura da fístula.


Essa diferença é fundamental: uma pomada que alivia sintomas não necessariamente trata a causa da doença. Se você ainda tem dúvida sobre o que está por trás dos seus sintomas, já expliquei como diferenciar fissura anal e hemorroidas.


3. Toda cirurgia anal é extremamente dolorosa e não existem alternativas?


MITO, MAS COM UMA RESSALVA IMPORTANTE!


A dor no pós-operatório

Não seria correto afirmar que as cirurgias anais são indolores.


A hemorroidectomia convencional, por exemplo, pode apresentar um pós-operatório bastante sofrido, especialmente durante as evacuações e nos primeiros dias de recuperação. Falei sobre isso no texto Pós-operatório de cirurgia anal dói? Saiba como amenizar o desconforto.


Entretanto, isso não significa que todos os procedimentos anais tenham a mesma intensidade de dor.


Técnicas com recuperação menos dolorosa

Atualmente, existem diferentes abordagens para tratar essas doenças, e algumas delas apresentam recuperação menos dolorosa.


No tratamento das hemorroidas, podemos citar técnicas como as hemorroidoplastias, hemorroidopexias e determinados procedimentos não excisionais, que geralmente provocam menos dor inicial do que a hemorroidectomia convencional.


Também existem técnicas que utilizam energia laser, embora seja importante lembrar que o laser não representa um único procedimento e que seus resultados dependem da indicação e da forma como é utilizado.


Nas fístulas anais, técnicas como LIFT, retalhos de avanço e determinados procedimentos endoscópicos ou com laser procuram tratar a doença preservando a musculatura esfincteriana.


Na fissura anal, a escolha do tratamento também pode modificar significativamente a recuperação.


Menos dor significa mais eficácia?

Atenção! Uma cirurgia menos dolorosa não é necessariamente uma cirurgia mais eficaz.

Algumas técnicas minimamente invasivas apresentam menor desconforto inicial, mas podem ter taxas de recorrência ou necessidade de novos procedimentos superiores às técnicas convencionais.


Portanto, o mais importante é identificar qual procedimento oferece a melhor relação entre eficácia, segurança e recuperação para aquele paciente, em vez de procurar uma cirurgia que prometa ausência completa de dor.


4. Quem opera hemorroidas terá o problema novamente?


MITO!

Essa é uma afirmação que merece atenção porque existem diferenças importantes entre os resultados das técnicas cirúrgicas.


A hemorroidectomia excisional, na qual os tecidos hemorroidários doentes são removidos, apresenta resultados duradouros e taxas relativamente baixas de recorrência.


Em contrapartida, algumas técnicas que preservam os tecidos hemorroidários podem apresentar maior probabilidade de retorno dos sintomas ou necessidade de outro tratamento.

Isso acontece, por exemplo, com a hemorroidopexia grampeada e, em determinadas situações, com a desarterialização hemorroidária.


Por que utilizar essas técnicas se a chance de recorrência pode ser maior?

Porque elas também podem oferecer vantagens, como menor dor inicial e retorno mais rápido às atividades habituais.


A hemorroida pode voltar depois de uma cirurgia bem-sucedida?

Outro ponto importante: mesmo após uma cirurgia bem-sucedida, o paciente pode desenvolver novos sintomas hemorroidários ao longo da vida.


Constipação, esforço evacuatório excessivo e outros fatores podem continuar contribuindo para a doença.


Portanto, operar hemorroidas não significa que elas obrigatoriamente voltarão, mas também não oferece garantia absoluta de que nunca mais haverá sintomas.


5. Toda pessoa com hemorroidas ou fissura anal precisa de cirurgia?


a maioria dos casos de doença hemorroidária não precisa de cirurgia
A maioria dos casos de hemorroida pode ser tratado sem cirurgia

MITO!


Nas hemorroidas

Na realidade, a maioria dos pacientes com doença hemorroidária não necessita de cirurgia.

O tratamento inicial geralmente envolve:


  • correção da constipação;

  • aumento do consumo de fibras;

  • melhora dos hábitos evacuatórios;

  • quando necessário, procedimentos ambulatoriais.


A ligadura elástica e a escleroterapia são exemplos de tratamentos que podem ser utilizados em situações selecionadas.


A cirurgia costuma ser considerada principalmente quando existe doença mais avançada, sintomas persistentes, componente externo importante ou falha de tratamentos menos invasivos.


Nas fissuras anais

Nas fissuras anais, também devemos diferenciar duas situações.


As fissuras agudas, geralmente com poucas semanas de evolução, frequentemente cicatrizam com medidas simples, como adequação das fezes, fibras, banhos de assento e controle da dor.


Já as fissuras crônicas podem exigir tratamentos específicos para reduzir a hipertonia do esfíncter anal interno, quando presente.


Nesses casos, pomadas com bloqueadores dos canais de cálcio ou nitratos e aplicações de toxina botulínica são alternativas terapêuticas.


Quando esses tratamentos não apresentam resultados satisfatórios, podemos considerar uma intervenção cirúrgica.


É importante destacar que a decisão não depende exclusivamente do tempo de evolução. A intensidade dos sintomas, as características da fissura, o funcionamento dos esfíncteres e os tratamentos anteriores também precisam ser avaliados.


6. Toda cirurgia de fístula anal provoca incontinência fecal?


MITO!

Talvez esse seja um dos receios mais importantes entre os pacientes com fístula anal.

A preocupação tem fundamento: os músculos responsáveis pelo controle das fezes e dos gases estão diretamente relacionados à anatomia de muitas fístulas.


Entretanto, isso não significa que toda cirurgia provoque incontinência.


Do que depende o risco?

O risco depende principalmente:


  • das características do trajeto fistuloso;

  • da quantidade de musculatura envolvida;

  • da função esfincteriana prévia;

  • da técnica utilizada.


Uma fístula superficial, que não envolve quantidade significativa de músculo, apresenta situação completamente diferente de uma fístula complexa que atravessa grande parte do aparelho esfincteriano.


Fistulotomia nas fístulas simples

Na fistulotomia convencional, por exemplo, o trajeto é aberto para permitir sua cicatrização.

Quando existe musculatura envolvida, parte dela pode precisar ser seccionada.


Em fístulas simples e bem selecionadas, essa técnica apresenta elevada eficácia e risco relativamente baixo de alterações importantes da continência.


Por outro lado, quanto maior o comprometimento esfincteriano, maior tende a ser a preocupação com alterações funcionais.


Essas alterações podem variar desde dificuldade para controlar gases até perdas involuntárias de fezes.


Técnicas que preservam os esfíncteres

Por isso, em fístulas complexas, frequentemente são consideradas técnicas que procuram preservar os esfíncteres, como LIFT, retalho de avanço e procedimentos selecionados com laser.


É necessário esclarecer, entretanto, que preservar a musculatura não significa garantir a cura. Algumas dessas técnicas podem apresentar maior probabilidade de persistência ou recorrência da fístula.


O objetivo do tratamento é fechar a fístula e conseguir a cicatrização preservando ao máximo a continência fecal e a qualidade de vida.


Essa é uma das razões pelas quais a avaliação por um coloproctologista experiente no tratamento de fístulas complexas é tão importante.


7. A fissura anal crônica só pode ser resolvida com a esfincterotomia?


MITO!

Durante muitos anos, a esfincterotomia lateral interna foi considerada o principal tratamento cirúrgico para fissuras anais crônicas que não cicatrizavam com medicamentos.


O procedimento consiste na secção controlada de parte do esfíncter anal interno, reduzindo sua pressão e favorecendo a cicatrização.


É uma técnica bastante eficaz. Diretrizes da Sociedade Americana de Cirurgiões Colorretais relatam taxas de cicatrização entre 88% e 100% nos estudos avaliados.


Entretanto, existe uma preocupação: a secção do esfíncter pode provocar alterações da continência, especialmente em pacientes com fatores de risco.


É importante destacar que os estudos incluem diferentes definições de incontinência, desde escapes de gases até alterações mais relevantes, e que o risco individual não pode ser resumido a um único percentual.


Existe outra forma de tratar fissura anal crônica?

Sim. Uma delas é a fissurectomia, procedimento no qual o tecido cronicamente alterado da fissura é removido para favorecer a cicatrização, sem necessidade obrigatória de seccionar o esfíncter anal interno.


A fissurectomia pode ser associada, em casos selecionados, à aplicação de toxina botulínica ou a técnicas de cobertura da ferida.


Sua principal vantagem potencial é preservar a integridade muscular.


Por outro lado, os resultados dependem da técnica empregada e das características da fissura, e a cicatrização pode ser menos previsível do que com a esfincterotomia em pacientes com hipertonia esfincteriana importante.


Então, qual é a melhor cirurgia para fissura anal?

Depende!


Em pacientes com fissura crônica, hipertonia esfincteriana e baixo risco de incontinência, a esfincterotomia lateral interna continua sendo uma opção altamente eficaz. Ainda assim, a situação da continência deve ser discutida com o paciente quando essa técnica for utilizada.


Já nos pacientes com risco aumentado de alterações da continência, como aqueles com lesões esfincterianas prévias, cirurgias anais anteriores ou determinadas alterações funcionais, pode ser preferível considerar técnicas que preservem a musculatura.


O fundamental é compreender que não existe uma única cirurgia adequada para todas as fissuras anais crônicas.


8. A cirurgia garante que a doença nunca mais voltará?


MITO!

Esse último mito vale para praticamente todas as cirurgias que discutimos. A medicina trabalha com probabilidades de sucesso, e garantias absolutas não existem.


Nas hemorroidas e nas fissuras anais

Nas hemorroidas, a recorrência depende da técnica utilizada, das características da doença e de fatores individuais.


Nas fissuras anais, mesmo após uma cicatrização completa, pode ocorrer uma nova fissura, especialmente se persistirem fatores como constipação e traumatismo evacuatório.


Nas fístulas anais

Nas fístulas anais, o desafio é ainda maior.


Uma fístula simples pode apresentar excelentes resultados com o tratamento adequado. Entretanto, fístulas complexas, ramificadas, recorrentes ou associadas à doença de Crohn podem exigir mais de uma intervenção.


Um estudo publicado em 2024, com 171 pacientes, identificou recorrência em aproximadamente 12,5% dos pacientes de sua amostra após tratamento cirúrgico de fístula anal (International Journal of Colorectal Disease, 2024). Nas fístulas simples, a recorrência foi de 5,9%; nas complexas, de 25,4%. Esse número, entretanto, não deve ser interpretado como a taxa universal de recorrência, pois os resultados variam conforme o tipo de fístula, o procedimento e o tempo de acompanhamento.


Persistência ou recorrência da fístula anal?

Além disso, é importante diferenciar persistência da doença, quando a fístula nunca cicatriza completamente, de recorrência, quando ocorre uma nova manifestação após a cicatrização inicial.


Nenhuma técnica consegue eliminar completamente essas possibilidades. Por isso, desconfie de tratamentos que prometem resultados definitivos para todos os pacientes, independentemente da gravidade da doença.


O paciente precisa conhecer não apenas as vantagens de uma cirurgia, mas também suas limitações, seus riscos e a possibilidade de recorrência.


Esse é o caminho para decisões mais seguras e resultados mais satisfatórios.


Espero que este texto ajude a esclarecer algumas das principais dúvidas sobre as cirurgias anais e, principalmente, mostre que as experiências negativas de alguns pacientes não representam necessariamente o que acontecerá com todos.


Até a próxima!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


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