Câncer de reto tem cura? Doença não é sentença de morte

Receber um diagnóstico de câncer assusta. Quando falamos em câncer de reto, além do medo da própria doença, muitos pacientes chegam ao consultório com outras preocupações:
"Vou precisar de uma cirurgia grande?"
"Vou usar uma bolsa de colostomia?"
"Vou conseguir ter uma vida normal?"
E, talvez a pergunta mais difícil: "Eu vou morrer?"
Mas existe uma mensagem muito importante: câncer de reto não é sinônimo de sentença de morte. É uma doença séria e que precisa ser tratada adequadamente. Entretanto, os resultados atuais são muito melhores do que muitas pessoas imaginam.
Quando diagnosticado precocemente, as chances de sucesso são excelentes. Mesmo nos tumores localmente avançados, os tratamentos modernos conseguem controlar e curar uma parcela expressiva dos pacientes.
Em casos selecionados, a resposta ao tratamento é tão boa que hoje podemos até preservar o reto e evitar uma cirurgia.
Câncer de reto tem cura?
Sim. O câncer de reto pode ser curado. Mas não existe uma única porcentagem de cura aplicável a todos os pacientes.
É o mesmo raciocínio que apresentei no texto sobre o diagnóstico de câncer de intestino: cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Do que depende a chance de cura do câncer no reto?
O prognóstico depende principalmente de:
estágio da doença;
presença de linfonodos (popularmente conhecidos como "ínguas");
presença de metástases (sinais de doença à distância);
características do tumor;
resposta ao tratamento.
Qual é a sobrevida do câncer de reto por estágio?
Dados populacionais mostram bem essa diferença (American Cancer Society, com base no registro SEER):
tumor de reto ainda localizado: a sobrevida relativa em cinco anos é de aproximadamente 90%.
doença que atingiu estruturas ou linfonodos próximos, sem metástases à distância: permanece em torno de 74%.
Sobrevida em cinco anos não é exatamente sinônimo de cura, e esses números não permitem prever individualmente o futuro de uma pessoa. Mas ajudam a desfazer uma ideia ainda muito presente: receber o diagnóstico de câncer de reto não significa receber uma sentença de morte.
Como é o tratamento do câncer de reto hoje?
O tratamento do câncer de reto evoluiu muito nos últimos anos. Uma das principais mudanças foi a chamada Terapia Neoadjuvante Total (TNT).
O que é a Terapia Neoadjuvante Total (TNT)?
Esse nome estranho significa que, em pacientes com câncer de reto localmente avançado e/ou com sinais de doença à distância, quimioterapia e radioterapia são realizadas antes da cirurgia. Dessa forma, tratamos tanto o tumor localizado no reto quanto possíveis células tumorais microscópicas existentes em outras partes do organismo.
O que os estudos mostram sobre a TNT?
Dois trabalhos ajudam a dimensionar essa evolução:
meta-análise com 4.721 pacientes: sobrevida livre de doença em três anos de 70,6% com TNT, contra 65,3% com o tratamento neoadjuvante convencional, além de redução das recorrências à distância (Kong et al., 2021);
estudo PRODIGE-23: resultados mantidos em longo prazo. Aos sete anos, 81,9% dos pacientes que receberam o tratamento neoadjuvante intensificado estavam vivos, comparados a 76,1% no grupo convencional (Conroy et al., 2024).
Estamos falando de pacientes com câncer de reto localmente avançado, e não apenas de pequenos tumores diagnosticados precocemente. Isso mostra o quanto o tratamento evoluiu.
É possível tratar o câncer de reto sem cirurgia e preservar o reto?
Em alguns pacientes, sim. Após quimioterapia e radioterapia, alguns tumores apresentam uma resposta tão intensa que deixam de ser identificados no exame clínico, na endoscopia e na ressonância.
Chamamos isso de resposta clínica completa. Nesses casos cuidadosamente selecionados, pode ser possível adotar uma estratégia conhecida como Watch and Wait ("observar e esperar"), evitando inicialmente a cirurgia e mantendo um acompanhamento muito rigoroso.
Contei a história dessa estratégia no texto sobre o tratamento do câncer de reto além da cirurgia.
O que mostrou o estudo OPRA?
Um dos principais estudos sobre essa estratégia é o OPRA, que avaliou pacientes com câncer de reto estágios II e III tratados com TNT (Verheij et al., 2024). Após cinco anos:
a sobrevida global ficou entre 85% e 88%;
dependendo da sequência de tratamento utilizada, até 54% dos pacientes conseguiram preservar o reto, sem necessidade de sua retirada cirúrgica.
A resposta ao tratamento influencia o prognóstico?
Sim. No OPRA, a resposta ao tratamento mostrou forte relação com o prognóstico (Thompson et al., 2024). A sobrevida livre de doença em três anos foi de:
88% nos pacientes que apresentaram resposta clínica completa;
69% naqueles com resposta quase completa;
56% nos pacientes com resposta incompleta.
Portanto, alguns pacientes com câncer de reto localmente avançado podem não apenas ser curados, mas também conseguir preservar o órgão.
E se o tumor voltar durante o Watch and Wait?

Essa é uma preocupação legítima. Mesmo depois de uma resposta clínica completa, pode ocorrer um recrescimento do tumor no reto. Por isso, Watch and Wait não significa simplesmente "não operar". É uma estratégia que exige acompanhamento rigoroso, especialmente nos primeiros anos.
No estudo OPRA, entre os pacientes que apresentaram retorno da doença, 99% o manifestaram nos primeiros três anos, o que reforça a importância da vigilância rigorosa neste período.
Um dado particularmente importante: a sobrevida livre de doença foi de 64% tanto nos pacientes operados imediatamente, após a reavaliação, quanto naqueles que inicialmente fizeram Watch and Wait e precisaram ser operados posteriormente devido ao recrescimento.
P
or isso, a preservação do reto tornou-se uma alternativa possível em centros especializados para pacientes cuidadosamente selecionados.
Todo câncer de reto tem o mesmo prognóstico?
Não. Apesar dos excelentes resultados atuais, seria incorreto afirmar que todo câncer de reto tem bom prognóstico. Estão associados a piores resultados:
tumores diagnosticados em estágios mais avançados;
presença de metástases;
comprometimento das margens cirúrgicas;
invasão vascular ou perineural;
maior comprometimento dos linfonodos;
resposta ruim ao tratamento.
Por isso, duas pessoas com diagnóstico de câncer de reto podem ter doenças completamente diferentes.
A pergunta mais adequada não é apenas "Câncer de reto tem cura?", mas: "Quais são as características deste tumor e quais são as possibilidades de tratamento para este paciente?"
Por que o medo não pode atrasar o diagnóstico?
Porque não fazer o diagnóstico não faz a doença desaparecer. Ao contrário, pode permitir que um tumor no reto inicialmente localizado continue crescendo e se torne mais difícil de tratar.
Existe um paradoxo importante: algumas pessoas têm tanto medo de descobrir um câncer que evitam procurar o médico quando aparecem sintomas. Nesse cenário:
sangramento nas fezes é atribuído às hemorroidas;
alterações persistentes do hábito intestinal são ignoradas;
a anemia é tratada sem que sua causa seja adequadamente investigada.
O diagnóstico precoce não cria o problema. Ele aumenta nossa possibilidade de resolvê-lo.
Câncer de reto é uma doença séria, mas existe muito espaço para esperança
Talvez uma das fases mais difíceis seja o intervalo entre ouvir a palavra "câncer" e compreender realmente o que está acontecendo. Nesse período, o medo frequentemente ocupa o espaço da informação.
O câncer de reto continua sendo uma doença séria. Não devemos minimizar sua importância nem prometer resultados. Mas também não podemos tratar esse diagnóstico como se estivéssemos algumas décadas atrás. Hoje temos:
ressonância magnética de alta resolução;
radioterapia mais precisa;
novos esquemas de quimioterapia;
Terapia Neoadjuvante Total;
para alguns pacientes, até a possibilidade de tratar a doença preservando o reto.
Os estudos modernos mostram sobrevida superior a 80% em cinco a sete anos em algumas populações com câncer de reto localmente avançado tratadas com as estratégias atuais. Quando a doença é descoberta ainda localizada, a sobrevida relativa em cinco anos se aproxima de 90%.
Por isso, a mensagem que gostaria que permanecesse deste texto é simples: câncer de reto não é sentença de morte.
Existe tratamento e possibilidade real de cura. E, para muitos pacientes, essa possibilidade é muito maior do que imaginavam quando receberam o diagnóstico.
O medo é compreensível, mas ele não pode atrasar a oportunidade de tratar. Diante de qualquer sintoma ou dúvida, procure um coloproctologista: a avaliação é sempre individualizada.
Um abraço,
Dr. Bruno Werneck
CRM-MG 36.980
Coloproctologista RQE 16.841
Cirurgião Geral RQE 22.235
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Referências
Kong JC, Soucisse M, Michael M, et al. Total Neoadjuvant Therapy in Locally Advanced Rectal Cancer: A Systematic Review and Metaanalysis of Oncological and Operative Outcomes. Ann Surg Oncol. 2021;28:7476-7486. https://doi.org/10.1245/s10434-021-09837-8
Verheij FS, Omer DM, Williams H, et al. Long-Term Results of Organ Preservation in Patients With Rectal Adenocarcinoma Treated With Total Neoadjuvant Therapy: The Randomized Phase II OPRA Trial. J Clin Oncol. 2024;42:500-506. https://doi.org/10.1200/JCO.23.01208
Thompson HM, Omer DM, Lin S, et al. Organ Preservation and Survival by Clinical Response Grade in Patients With Rectal Cancer Treated With Total Neoadjuvant Therapy. JAMA Netw Open. 2024;7(1):e2350903. https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2023.50903
Conroy T, Castan F, Etienne PL, et al. Total neoadjuvant therapy with mFOLFIRINOX versus preoperative chemoradiotherapy in patients with locally advanced rectal cancer: long-term results of the UNICANCER-PRODIGE 23 trial. Ann Oncol. 2024;35:873-881. https://doi.org/10.1016/j.annonc.2024.06.019




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