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Obesidade e sedentarismo causam câncer? Entenda o risco

há 9 horas
8 min de leitura
a obesidade é um dos fatores de risco modificáveis para o câncer

Vamos nos mexer! O sedentarismo e a obesidade são fatores de risco de câncer, e a ciência já sabe bastante sobre essa relação. Em grandes estudos, o excesso de peso aparece como um dos fatores evitáveis que mais contribuem para os casos da doença, atrás apenas do cigarro.


Muita gente associa o câncer apenas à genética ou ao acaso e se surpreende ao saber que hábitos do dia a dia, como o tempo que passa sentado e o peso, podem influenciar esse risco. O câncer de intestino é um dos tipos em que essa ligação é mais forte.


Ao longo deste texto, você vai entender o que os estudos realmente comprovam sobre sedentarismo, atividade física, se obesidade causa câncer, por que essa relação é difícil de provar, quais tipos de câncer estão ligados ao excesso de peso e o que fazer, na prática, para reduzir o risco.


Por que é difícil provar a ligação entre estilo de vida e câncer?

Comprovar, de maneira científica, que há uma relação entre estilo de vida e prevenção de tumores nem sempre é fácil. Há muitos fatores associados que podem atrapalhar os resultados e levar a conclusões errôneas.


Exemplo errado de estudo sobre sedentarismo e câncer

Vejam o exemplo abaixo para entender melhor.


Cientistas resolvem comparar um determinado grupo de pessoas que fazem exercícios com outro grupo de comportamento sedentário. Os pesquisadores identificam que há maior incidência de câncer no segundo grupo.


Logo, é possível concluir que fazer exercício previne os tumores malignos? Nesse caso, não!


Os grupos precisam ser avaliados por vários critérios para serem considerados comparáveis entre si. Por exemplo, imagine se existirem mais fumantes e etilistas (que bebem álcool) no grupo de sedentários?


Isso significa que os casos de câncer podem estar relacionados com esses hábitos, e não ao sedentarismo.


Estudos reais sobre hábitos de vida e câncer

Mas os cientistas não desistem…


Por análises estatísticas multivariadas, foi estimado que cerca de 40% dos cânceres podem ser preveníveis por hábitos de vida saudáveis e fatores de risco modificáveis.


Esse número foi reforçado em 2024 por um estudo da Sociedade Americana de Câncer. Nos Estados Unidos, 40% dos casos de câncer em adultos a partir dos 30 anos foram atribuídos a fatores de risco modificáveis, e o excesso de peso foi o segundo maior contribuinte, atrás apenas do cigarro (Islami et al., CA: A Cancer Journal for Clinicians, 2024).


Em 2021, foi publicado um estudo que analisou, de maneira aprofundada, as relações dos três fatores: sedentarismo, obesidade e atividade física, além do risco de câncer. A pesquisa identificou de maneira direta algumas correlações interessantes, que veremos a seguir.


Sedentarismo aumenta o risco de câncer?

Sim. Existem evidências de que pessoas com estilos de vida sedentários têm um risco aumentado de câncer de cólon (intestino), endométrio e pulmão.


O comportamento sedentário é definido quando a pessoa gasta menos de uma vez e meia a energia metabólica de apenas sentar, reclinar ou deitar. É um pouco difícil de entender, mas, para simplificar, é a pessoa que, de maneira constante, permanece mais tempo em tarefas de baixo gasto energético.


Considerando o fato de que o comportamento sedentário está relacionado ao aumento de risco para doenças degenerativas, cardiovasculares e endócrinas, devemos encorajar em todas as épocas da vida ações para estimular a adoção de atitudes proativas de exercício.


Atividade física previne o câncer?


a atividade física regular é um hábito que ajuda a reduzir o risco de câncer
A atividade física é um dos fatores modificáveis associados à redução do risco de câncer

A atividade física regular está associada a menor risco de vários tipos de câncer, e esse efeito parece crescer junto com o nível de atividade.


A definição do que é atividade física, a diferença entre atividades aeróbicas e anaeróbicas, a intensidade e a frequência delas não podem ser avaliadas com precisão, pois a maioria da literatura médica é heterogênea. Isso dificulta a comparação entre estudos de diferentes centros de pesquisa.


De toda forma, os estudos têm identificado que níveis cada vez mais altos de exercícios físicos parecem ter um efeito diretamente proporcional na proteção contra os seguintes tipos de tumores:

  • intestino;

  • mama;

  • bexiga;

  • endométrio;

  • esôfago;

  • estômago (câncer na cárdia).


Em outras palavras, quanto mais atividade, maior proteção e maior prevenção a doenças em geral, não apenas o câncer.


Obesidade causa câncer? Os 13 tipos ligados ao excesso de peso

A obesidade está associada a um maior risco de 13 tipos de câncer. A lista foi definida pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, após a análise de mais de mil estudos (Lauby-Secretan et al., New England Journal of Medicine, 2016).


O ganho de peso associado a uma nutrição inadequada leva ao acúmulo excessivo de gordura. Um dos métodos para medir isso é o cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC): o peso da pessoa, em quilos, dividido pela altura, em metros, elevada ao quadrado. Na internet, há várias calculadoras que facilmente conseguem definir o seu IMC.


Pessoas com IMC acima de 30 podem ser classificadas como obesas e, nessa população, pesquisas identificaram um risco aumentado de desenvolvimento de 13 tipos de cânceres:

  • intestino (cólon e reto);

  • endométrio;

  • mama (após a menopausa);

  • esôfago (adenocarcinoma);

  • rim;

  • meningioma;

  • pâncreas;

  • estômago (região da cárdia);

  • fígado;

  • mieloma múltiplo;

  • ovário;

  • vesícula biliar;

  • tireoide.


Quanto maior o excesso, maior o risco de câncer

O mais importante dos estudos que avaliaram essa relação é que quanto pior for o quadro de obesidade, maior o risco de câncer. Em outras palavras, é importante encorajar o controle do peso, pois mais benefício a pessoa terá.


No Brasil, pesquisadores estimaram que pelo menos 15 mil casos de câncer por ano poderiam ser evitados com a redução do excesso de peso e da obesidade (Rezende et al., 2018).


Mas vamos ter cuidado com as interpretações! O respeito a todos deve vir em primeiro lugar. As informações nesse texto não devem, de maneira alguma, induzir a um pensamento gordofóbico ou a qualquer tipo de preconceito.


Esse texto tem como objetivo levantar questões de cunho científico, uma vez que, por meio de pesquisas científicas, é sabido que a obesidade é uma doença crônica, de causa multifatorial e de difícil tratamento. Por isso, o acompanhamento médico faz toda a diferença.


Obesidade, sedentarismo e câncer de intestino: qual a relação?

O câncer de intestino está entre os tumores mais ligados ao estilo de vida. O excesso de gordura corporal aumenta o risco, a atividade física reduz o risco de câncer de cólon, e as duas relações são classificadas como evidência convincente pelas principais instituições de pesquisa em câncer.


O que dizem as grandes instituições de pesquisa


  • World Cancer Research Fund (WCRF/AICR): a evidência é convincente de que a gordura corporal aumenta o risco de câncer colorretal e de que a atividade física diminui o risco de câncer de cólon. As pessoas mais ativas tiveram risco cerca de 20% menor do que as menos ativas.

  • IARC/OMS: o câncer colorretal está entre os 13 tipos com evidência suficiente de ligação com o excesso de gordura corporal.

  • INCA: cerca de 30% dos novos casos de câncer de intestino no Brasil podem ser associados à má alimentação, ao excesso de peso, à inatividade física e ao excesso de bebidas alcoólicas.


Para o câncer de reto, os dados sobre atividade física ainda não permitem a mesma conclusão.


Por que o excesso de peso afeta o intestino?

A gordura corporal em excesso altera os níveis de hormônios e de fatores de crescimento que podem estimular a multiplicação de células tumorais. Ela também mantém o organismo em um estado de inflamação crônica, que pode favorecer o desenvolvimento do câncer.


A maioria dos tumores de intestino começa como pólipos, lesões benignas que crescem devagar. Entenda esse processo no nosso texto sobre como os pólipos evoluem para câncer de intestino.


O câncer de intestino está crescendo, inclusive entre jovens

Segundo o INCA, o Brasil deve registrar 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano entre 2026 e 2028. Ele responde por cerca de 10% dos casos de câncer em homens e em mulheres, e o seu crescimento preocupa os especialistas.


Os casos antes dos 50 anos também aumentaram, e o peso e o tempo sentado aparecem entre os fatores associados.


Em um estudo com mais de 85 mil enfermeiras americanas, mulheres com obesidade tiveram quase o dobro de risco de câncer de intestino antes dos 50 anos, em comparação com as de peso adequado (Liu et al., JAMA Oncology, 2019).


Outro estudo, feito com quase 90 mil mulheres dessa mesma pesquisa, mostrou que quem passava mais de 14 horas por semana assistindo TV teve risco 69% maior de câncer de intestino antes dos 50 anos do que quem assistia até 7 horas. A associação se manteve mesmo considerando peso e exercício, e foi mais forte para o câncer de reto (Nguyen et al., JNCI Cancer Spectrum, 2018).


Esses estudos mostram uma associação e foram feitos apenas com mulheres, então ainda não provam causa e efeito. Mesmo assim, reforçam um alerta importante, que detalhamos no texto sobre câncer de intestino em jovens.


Depois do diagnóstico, o exercício também faz diferença

O exercício está ligado a melhores resultados também em quem já tratou um câncer de intestino. O estudo CHALLENGE, publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, acompanhou 889 pacientes com câncer de cólon que já tinham feito cirurgia e quimioterapia.


Quem participou de um programa estruturado de exercícios por três anos teve 28% menos risco de recidiva da doença, de um novo câncer ou de morte. Em cinco anos, 80,3% estavam livres da doença, contra 73,9% no grupo que recebeu apenas material educativo (Courneya et al., 2025).


Esse tipo de programa deve ser sempre orientado pela equipe que acompanha o tratamento.


Prevenção do câncer de intestino vai além da balança

Cuidar do peso e se movimentar ajuda muito, mas os exames continuam indispensáveis. A colonoscopia permite encontrar e retirar pólipos antes que eles virem câncer. Para saber quando fazer e repetir o exame, veja nosso texto sobre com qual frequência repetir a colonoscopia.


Se o receio do exame é o que te impede de realizá-lo, este texto sobre o medo de colonoscopia pode ajudar.


Na prática, alguns cuidados fazem diferença:


  • reduzir o tempo sentado, com pausas para se levantar e se movimentar ao longo do dia;

  • incluir atividade física regular na rotina, na intensidade possível para você;

  • buscar acompanhamento para o controle do peso, já que a obesidade é uma doença crônica;

  • manter os exames de rastreamento em dia, conforme a orientação do seu médico.


Vale lembrar que nem toda queixa intestinal está ligada ao câncer. Como explicamos no texto sobre prisão de ventre e câncer de intestino, a constipação, por exemplo, não parece ser uma causa da doença.


Conclusão

De maneira geral, a mensagem que deve ficar para todos nós é que todo e qualquer direcionamento para hábitos saudáveis parece, sim, estar relacionado a ganhos na prevenção do câncer e de outras doenças.


No caso do intestino, peso adequado, movimento e exames em dia caminham juntos. Converse com seu médico para definir o que faz sentido para você.


Juntos, podemos vencer! Até a próxima, pessoal!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


Aprenda mais



Referência

  1. Islami F, et al. Proportion and number of cancer cases and deaths attributable to potentially modifiable risk factors in the United States, 2019. CA: A Cancer Journal for Clinicians, 2024. Comunicado da American Cancer Society

  2. Lauby-Secretan B, et al. Body Fatness and Cancer: Viewpoint of the IARC Working Group. New England Journal of Medicine, 2016;375(8):794-798. PMC

  3. World Cancer Research Fund / American Institute for Cancer Research. Continuous Update Project: Diet, Nutrition, Physical Activity and Colorectal Cancer, 2017 (tabela de evidências revisada em 2018). Resumo do relatório e tabela de evidências

  4. Liu PH, et al. Association of Obesity With Risk of Early-Onset Colorectal Cancer Among Women. JAMA Oncology, 2019;5(1). JAMA Network

  5. Nguyen LH, et al. Sedentary Behaviors, TV Viewing Time, and Risk of Young-Onset Colorectal Cancer. JNCI Cancer Spectrum, 2018;2(4):pky073. PubMed

  6. Courneya KS, et al. Structured Exercise after Adjuvant Chemotherapy for Colon Cancer (estudo CHALLENGE). New England Journal of Medicine, 2025. Resumo

  7. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil, 2026. Divulgação

  8. INCA. Campanha "Câncer de Intestino: O Que Você Precisa Saber?", 2021 (dado de 30% dos casos associados a hábitos de vida). Agência Brasil via O Povo

  9. Rezende LFM, et al. Fração de câncer atribuível ao IMC elevado no Brasil, 2018. Agência FAPESP

  10. American Institute for Cancer Research. Colorectal Cancer, Your FAQs Answered (mecanismos da gordura corporal). AICR


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