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Hidrocolonterapia: existe embasamento científico para esse procedimento?

O tema do texto da semana, hidrocolonterapia, foi escolhido por pedidos dos leitores. Confesso que não pensei em escrever sobre o assunto, principalmente pela falta de literatura séria sobre o tema. Entretanto, toda vez que uma celebridade ou influenciador publica algo nas redes sociais sobre isto, grande número de clientes em nossa clínica nos pergunta sobre a indicação, as vantagens e os riscos dessa prática.


A técnica hidrocolonterapia é também chamada de hidroterapia colônica e consiste apenas na limpeza do intestino grosso por via retrógrada.


Qual área defende a hidrocolonterapia?

A hidrocolonterapia é defendida principalmente por profissionais da área de saúde não médicos, como fisioterapeutas e enfermeiros. Por outro lado, o procedimento é questionado por médicos e sociedades de especialidades relacionadas ao cólon.


Por exemplo, após uma influencer fazer uma publicação sobre esse procedimento e chamar muita atenção para a técnica, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia resolveu emitir uma nota técnica sobre o assunto e pode ser acessada aqui.


Nosso interesse neste texto não é condenar ou aprovar a realização da hidrocolonterapia, mas levantar aspectos científicos para tentar levar um pouco de luz para os nossos leitores.


O que é a hidrocolonterapia?

De maneira simplificada, a técnica consiste em inserir um tubo pelo reto e bombear água, soro e alguns aditivos (ditos desintoxicantes, antioxidantes, probióticos, chás, entre outros) até que o cólon seja preenchido pelo líquido. Geralmente, a progressão é auxiliada por um terapeuta por meio de massagens no abdome e/ou mudanças de posição.


Posteriormente, o paciente é encorajado a ir ao sanitário e evacuar completamente o conteúdo do intestino. O procedimento dura em torno de uma hora.


Quais seriam as indicações da hidrocolonterapia?

Aqui vem a primeira polêmica… Se a literatura médica disponível for avaliada, não há praticamente qualquer estudo bem desenhado com força de análise científica que indique o benefício da hidrocolonterapia.


As raras análises realizadas não conseguiram concluir definitivamente nenhuma indicação precisa, e a maioria dos benefícios encontrados estão listados em estudos com poucos pacientes e metodologia questionável, ou apenas opiniões de profissionais do ramo.


Por que indicam hidrocolonterapia?

Aqueles que defendem a hidrocolonterapia acreditam que isso ajudaria a livrar o intestino de toxinas, removeria resíduos antigos resíduos no intestino grosso e que trataria inflamações, síndrome do intestino irritável e até promoveria a perda de peso.


O que a ciência diz sobre hidrocolonterapia?

Vamos colocar um pouco de ciência neste tema? Sabemos que a medicina e as ciências de saúde evoluem a cada dia e podemos encontrar outras evidências que podem, a longo prazo, modificar o que escreveremos aqui.


De toda forma, a luz do conhecimento atual o que existe está listada a seguir.


Teoria do “cocô velho”

Considerando que nosso trato gastrointestinal funciona como um tubo maleável, com propulsão natural por meio de movimentação sincronizada, não há um lugar onde as fezes ficam paradas e outras passando.


O alimento entra pela boca, vai se transformando em bolo fecal que, por sua vez, vai progredindo sequencialmente até sair pelo ânus. Sendo assim, as fezes que estão saindo são apenas aquelas que iriam sair naturalmente em algumas horas.


O processo digestivo é algo natural, ou seja, não procede a ideia de "cocô velho"
O processo digestivo é algo natural, ou seja, não procede a ideia de "cocô velho"

Em outras palavras, a pessoa está apenas esvaziando o cólon, que será novamente preenchido em algum tempo quando os resíduos continuam a movimentar-se pelos movimentos intestinais.


Hipótese da perda de peso

Não há menor sentido em considerar que haveria realmente uma perda de peso real com a hidrocolonterapia. A perda vista na balança após a limpeza é apenas de fezes que seriam eliminadas de qualquer maneira e serão substituídas logo, logo.


E não há nem como justificar que saindo mais rápido o organismo absorverá menos calorias, pois no cólon a absorção é predominantemente de água e íons e não de nutrientes.


Crença em eliminação de toxinas

Também não há qualquer evidência científica que indique que o tempo que as fezes ficam no cólon e a aplicação de antioxidantes e probióticos via retal interfiram na absorção de toxinas pelas células da mucosa.


Microbioma alterado

Isso, sim, tem comprovação científica. Porém, a limpeza do intestino interfere NEGATIVAMENTE no equilíbrio intestinal, podendo ajudar a eliminar microrganismos DO BEM que ajudam em nossas defesas contra infeções e inflamações.


Quais os riscos da hidrocolonterapia?

​Existem relatos de complicações, que são infrequentes felizmente, mas que podem acontecer.


  • Perfuração do intestino: durante a introdução da sonda pelo reto ou pelo excesso de pressão no cólon.

  • Alteração da absorção de íons: o intestino grosso é responsável pela absorção de eletrólitos e sua limpeza pode alterar o equilíbrio desse processo.

  • Disbiose: a limpeza intestinal pode alterar o equilíbrio do microbioma.

  • Contaminações: se não realizadas com as devidas normas de higienização, pode haver contaminação vinda através do material ou líquido utilizado.

Para concluir: cuidado com promessas milagrosas!

Na maioria dos casos, a sensação boa de esvaziamento do intestino passa muito rápido e não substitui de forma alguma os hábitos de vida saudável e autoconhecimento que sempre recomendamos em nossos textos. Esses, sim, têm benefícios duradouros, mas não são fáceis de implementar.


Outro fator muito importante… Em caso de sintomas de problemas intestinais, procure um médico especialista! Isso pode ser sinal de uma doença.


Até mais, pessoal!

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