Quem tem medo de colonoscopia?
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"Doutor, eu sei que preciso fazer colonoscopia, mas tenho medo."
Essa é uma frase que escuto com frequência no consultório.
Algumas pessoas têm medo da anestesia ou da sedação. Outras têm receio de sentir dor durante o exame. Há quem tema uma perfuração intestinal. E existem também aqueles que simplesmente sentem vergonha ou desconforto com a ideia do exame.
Nos últimos dias, a colonoscopia voltou a ser assunto depois de uma reportagem sobre a complicação de uma paciente durante o exame, o que reacendeu o medo de colonoscopia em muita gente. Talvez seja uma boa oportunidade para conversarmos sobre o tema.
O medo de colonoscopia merece ser respeitado. Mas também precisa ser colocado em perspectiva.
A colonoscopia não é um exame que deve ser feito de qualquer maneira, em qualquer lugar ou sem uma indicação adequada. Como todo procedimento médico, possui riscos. Por outro lado, quando bem indicada e realizada em ambiente apropriado, por profissionais treinados, é um dos principais instrumentos que temos para diagnosticar doenças do intestino e, especialmente, para prevenir o câncer colorretal.
Existe uma diferença importante entre conhecer os riscos de um exame e deixar que o medo nos impeça de realizá-lo, quando ele é necessário.
Afinal, o que é colonoscopia?
A colonoscopia é um exame que permite visualizar diretamente o interior do intestino grosso e, na maioria dos casos, também a porção final do intestino delgado.
Para isso, utilizamos um aparelho fino e flexível chamado colonoscópio, que possui uma câmera na extremidade. As imagens são transmitidas para um monitor e permitem ao médico examinar detalhadamente a mucosa intestinal.
Existe uma característica que torna a colonoscopia diferente de muitos outros exames: ela não serve apenas para diagnosticar. Durante o próprio procedimento podemos realizar biópsias e, principalmente, identificar e retirar pólipos antes que evoluam para câncer. Isso é extremamente importante, e você pode conferir outros textos sobre o tema aqui no blog.
A colonoscopia pode encontrar o câncer. Mas o melhor é preveni-lo
Grande parte dos cânceres colorretais se desenvolve a partir de lesões precursoras, principalmente os pólipos. Esse processo costuma ocorrer ao longo de anos. É justamente aí que está uma das grandes vantagens da colonoscopia: podemos identificar uma lesão precursora e removê-la antes que ela tenha oportunidade de evoluir para um câncer.
Em outras palavras, em determinadas situações não estamos apenas fazendo diagnóstico precoce do câncer. Estamos tentando impedir que ele apareça.
Estudos de grande porte associam a realização de colonoscopia a reduções na incidência e na mortalidade por câncer colorretal. Existe uma variação grande entre esses estudos, mas o conjunto das evidências sustenta a colonoscopia como uma ferramenta importante na prevenção do câncer colorretal.
Por isso, em vez de pensar apenas "e se encontrarem alguma coisa?", vale a pena pensar de outra forma: se houver alguma coisa começando, não seria melhor encontrá-la agora?
Quem precisa fazer colonoscopia?
A colonoscopia pode ser solicitada para investigação de sintomas e alterações como sangramento intestinal, anemia por deficiência de ferro sem causa esclarecida, determinadas mudanças persistentes do hábito intestinal ou alterações encontradas em outros exames.
Também é utilizada no acompanhamento de pessoas que já tiveram pólipos, câncer colorretal, algumas doenças inflamatórias intestinais ou que apresentam condições de maior risco.
E existe ainda o rastreamento do câncer colorretal em pessoas sem sintomas. Diversas recomendações internacionais passaram a indicar o início do rastreamento para indivíduos de risco habitual a partir dos 45 anos. Isso não significa, entretanto, que toda pessoa aos 45 anos precise obrigatoriamente de uma colonoscopia. Existem diferentes estratégias de rastreamento do câncer colorretal, incluindo testes de fezes e métodos endoscópicos, e a escolha depende do risco individual, da disponibilidade, das preferências do paciente e da orientação médica.
Pessoas com história familiar significativa de câncer colorretal, síndromes hereditárias ou outras condições de maior risco podem precisar iniciar a investigação mais cedo e seguir protocolos diferentes, incluindo intervalos distintos para repetir o exame.
Talvez a mensagem mais importante sobre prevenção seja essa: o ponto não é que todo mundo precisa fazer colonoscopia. O ponto é que todo mundo deveria conversar sobre prevenção do câncer colorretal e realizar o rastreamento adequado ao seu risco.
Mas doutor, colonoscopia dói?

Esse é provavelmente um dos maiores receios de quem tem medo de colonoscopia.
Na maioria dos serviços, a colonoscopia é realizada com sedação. O objetivo da sedação é proporcionar conforto durante o procedimento. O tipo e a profundidade da sedação podem variar conforme o paciente, o procedimento, os protocolos do serviço e a equipe responsável.
Durante o exame também são monitorados parâmetros como oxigenação, frequência cardíaca e pressão arterial, de acordo com as características do procedimento e da sedação utilizada.
Para muitas pessoas, a parte mais incômoda da experiência acaba não sendo a colonoscopia em si, mas o preparo para colonoscopia realizado antes dela.
O preparo é muito importante, pois lavar o intestino é pressuposto indispensável para podermos avaliar integralmente a superfície da mucosa à procura de lesões. Lembre-se de que a colonoscopia é uma espécie de filmagem: se o intestino não estiver limpo, não há como enxergar bem.
O preparo para colonoscopia costuma ser a parte mais chata do processo, e cada serviço de endoscopia tem o seu protocolo, mas ele é fundamental para que o exame alcance o objetivo esperado.
E a vergonha de fazer colonoscopia?
Precisamos falar também sobre isso. Para alguns pacientes, o problema não é exatamente medo, mas constrangimento.
A ideia de introduzir um aparelho pelo ânus ainda carrega um tabu que não deveria existir. O ânus e o reto são partes do corpo humano como qualquer outra. Para a equipe que realiza colonoscopias, esse é um procedimento médico como outro qualquer: existe uma preocupação com privacidade, segurança, técnica e diagnóstico, sem qualquer julgamento sobre o paciente. Não permita que a vergonha seja responsável por atrasar a investigação de um sangramento, de uma anemia ou a prevenção de um câncer.
Colonoscopia tem risco?
Sim. E acho importante falar isso claramente.
Não existe procedimento médico totalmente isento de risco. Entre as complicações possíveis dos riscos da colonoscopia estão reações relacionadas à sedação, sangramento e perfuração intestinal. O risco depende de diversos fatores, incluindo idade, condições clínicas do paciente e, principalmente, se o exame é apenas diagnóstico ou se são realizados procedimentos terapêuticos.
Grandes estudos populacionais mostram que perfuração e sangramento são eventos pouco frequentes, embora potencialmente graves. Colonoscopias preventivas têm risco baixo de complicações, e essas são a maioria dos exames realizados em clínicas. Quando os exames envolvem procedimentos maiores, como a retirada de lesões, esse risco pode aumentar, mas continua sendo um evento raro.
O risco não é igual para todos. Retirar um pólipo grande e complexo de um paciente idoso com várias doenças associadas é diferente de realizar uma colonoscopia diagnóstica em uma pessoa jovem e saudável. É por isso que a indicação correta e a avaliação individual são tão importantes.
O medo de colonoscopia pode diminuir com informação
Curiosamente, a própria ciência mostra que informar melhor o paciente ajuda a controlar o receio.
Uma meta-análise recente, que reuniu 24 estudos randomizados e mais de 2.500 participantes, avaliou diferentes estratégias para reduzir a ansiedade antes da colonoscopia. Intervenções educativas individualizadas e informações apresentadas em vídeo estiveram entre as estratégias mais eficazes para quem sente medo de colonoscopia.
Isso reforça algo que vemos diariamente na prática: quando o paciente entende o que vai acontecer, por que o exame está sendo solicitado, como funciona a sedação, como deve fazer o preparo para colonoscopia e quais são os riscos reais, boa parte do medo diminui.
O desconhecido assusta. Informação de qualidade ajuda a transformar medo em decisão consciente.
Talvez o verdadeiro medo devesse ser outro
Não quero terminar este texto dizendo que ninguém deve sentir medo de colonoscopia. Medo é uma reação humana. Também não quero transmitir a ideia de que colonoscopia é um procedimento banal ou completamente livre de complicações, porque não é.
Mas existe uma diferença enorme entre respeitar um risco e permitir que ele seja ampliado pelo desconhecimento.
O câncer colorretal frequentemente se desenvolve de maneira silenciosa, e muitas das lesões que o antecedem também não provocam sintomas. É justamente por isso que a prevenção do câncer colorretal é tão importante. Quando existe indicação adequada, uma colonoscopia de qualidade pode identificar um câncer em fase inicial. Melhor ainda: pode encontrar e retirar uma lesão antes que ela se transforme em câncer.
Então, se você tem medo de colonoscopia, converse. Pergunte e entenda sua indicação. Escolha um serviço adequado e um profissional treinado. Faça o preparo corretamente. Mas não deixe que o medo ou a vergonha decidam por você.
Porque, quando falamos em câncer colorretal, descobrir cedo é muito importante. E impedir que ele apareça é melhor ainda.
Cuidar da sua saúde é responsabilidade de cada pessoa, e ter acesso a informação de qualidade também faz parte desse cuidado!
Dr. Bruno Werneck
CRM-MG 36.980
Coloproctologista RQE 16.841
Cirurgião Geral RQE 22.235




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