Cirurgia robótica de intestino: o que as novas evidências científicas realmente mostram?

Há alguns anos, quando começamos a falar sobre cirurgia robótica de intestino, uma das principais perguntas era: será que realmente existe alguma vantagem em utilizar um robô para realizar uma cirurgia que já pode ser feita por videolaparoscopia?
A pergunta continua válida.
Afinal, a cirurgia laparoscópica representou um enorme avanço em relação às operações abertas, permitindo realizar cirurgias complexas através de pequenas incisões, com menor agressão à parede abdominal e recuperação mais rápida.
Então, por que acrescentar um robô?
A resposta está ficando mais clara à medida que novos estudos são publicados. E alguns trabalhos recentes, incluindo grandes estudos randomizados e meta-análises, começam a mostrar onde a cirurgia robótica pode realmente fazer diferença.
Mas já adianto uma coisa: não significa que toda cirurgia de intestino deva ser feita por robótica, nem que o robô transforme automaticamente uma cirurgia em uma operação melhor.
Como sempre falamos por aqui, quem opera é o cirurgião, e não o robô.
O que a tecnologia oferece é uma ferramenta diferente, que permite movimentos extremamente precisos e delicados. E essa diferença parece ser particularmente importante quando precisamos trabalhar em espaços pequenos e próximos de estruturas que devem ser preservadas.
O que muda quando utilizamos o robô na cirurgia de intestino?
Para o paciente, uma cirurgia laparoscópica e uma cirurgia robótica de intestino podem parecer bastante semelhantes.
Nas duas situações, fazemos pequenas incisões no abdome e introduzimos uma câmera e instrumentos cirúrgicos. Portanto, ambas são consideradas cirurgias minimamente invasivas.
A diferença aparece principalmente para quem está operando.
Na cirurgia robótica, o cirurgião trabalha em um console com visão tridimensional ampliada, enquanto controla instrumentos articulados que conseguem reproduzir movimentos semelhantes e, em alguns aspectos, até mais amplos aos da mão humana.
Além disso, a plataforma filtra pequenos tremores involuntários e proporciona grande estabilidade dos instrumentos. Na prática, isso significa conseguir realizar movimentos muito pequenos e delicados durante uma dissecção.
E aqui talvez esteja um dos aspectos mais interessantes da cirurgia robótica.
Em uma cirurgia de intestino, nosso objetivo não é simplesmente retirar um segmento intestinal. Precisamos separar tecidos, identificar vasos sanguíneos, preservar nervos e reconhecer diferentes planos anatômicos. Essas estruturas podem estar separadas por poucos milímetros.
Por isso, quando falamos que a cirurgia robótica pode proporcionar uma dissecção mais delicada, não estamos falando apenas de uma impressão do cirurgião. Existem características técnicas da plataforma que foram desenvolvidas justamente para aumentar a precisão dos movimentos.
A questão científica é outra: essa maior precisão se transforma em benefício real para o paciente?
É exatamente isso que os estudos mais recentes estão tentando responder.
Cirurgia robótica pode diminuir a necessidade de converter a operação para cirurgia aberta
Esse é provavelmente um dos resultados mais consistentes da literatura atual.
Quando começamos uma cirurgia por videolaparoscopia ou robótica, eventualmente podemos encontrar uma dificuldade que obrigue o cirurgião a fazer uma incisão maior e transformar o procedimento em uma cirurgia aberta. Chamamos isso de conversão para laparotomia.
Isso não significa necessariamente que houve uma complicação. Muitas vezes, converter é justamente a decisão mais segura diante de uma dificuldade técnica.
Entretanto, evitar uma conversão, quando isso pode ser feito com segurança, é desejável porque preserva os benefícios da cirurgia minimamente invasiva.
Uma meta-análise de estudos randomizados publicada em 2026 avaliou sete estudos e 2.540 pacientes submetidos a cirurgias para câncer de reto. O resultado mostrou que a cirurgia robótica esteve associada a aproximadamente 48% menor chance de conversão para cirurgia aberta quando comparada à laparoscopia convencional.
É um resultado importante porque aparece também em outras análises da literatura.
E provavelmente faz sentido do ponto de vista técnico: quanto mais difícil o acesso e mais restrito o espaço disponível para trabalhar, maior pode ser a vantagem proporcionada pelos instrumentos articulados e pela visão tridimensional da plataforma robótica.
E a recuperação depois da cirurgia robótica de intestino?
Aqui os resultados também são interessantes, embora precisem ser interpretados com um pouco mais de cautela.
Diversas meta-análises que incluem estudos observacionais mostram algumas vantagens da cirurgia robótica em relação à laparoscopia, como:
menor perda de sangue durante a cirurgia;
retorno mais rápido do funcionamento intestinal;
menor tempo até a eliminação dos primeiros gases;
menor tempo de internação em alguns estudos;
menor incidência de algumas complicações pós-operatórias;
menor taxa de infecção da ferida operatória em algumas análises.
Entretanto, quando analisamos exclusivamente os estudos randomizados, que geralmente fornecem uma evidência científica mais robusta, algumas dessas diferenças ficam menores ou deixam de ser estatisticamente significativas.
Portanto, acho importante colocar as coisas no devido lugar: a cirurgia robótica parece oferecer algumas vantagens na recuperação, mas não podemos dizer que ela reduz de maneira importante todas as complicações de uma cirurgia intestinal.
Para quem ainda está em dúvida entre as duas técnicas, vale a leitura de outro texto em que comparamos diretamente cirurgia robótica e cirurgia laparoscópica de intestino em termos de custo-benefício.
A cirurgia robótica de intestino causa menos dor?
Essa é uma pergunta que interessa muito aos pacientes e começam a surgir dados interessantes nesse sentido.
Um estudo publicado recentemente comparou pacientes submetidos a colectomias robóticas e laparoscópicas para câncer de cólon. Os pacientes operados por cirurgia robótica apresentaram menores escores de dor no pós-operatório, além de recuperação mais rápida e menor tempo de internação.
Mas precisamos fazer uma ressalva.
Esse não foi um estudo randomizado e mais estudos com metodologia mais robusta ainda são necessários para que este dado seja definitivamente comprovado.
Portanto, hoje eu diria da seguinte forma: existem evidências sugerindo menor dor pós-operatória com a cirurgia robótica, mas precisamos de mais dados para considerar esse benefício definitivamente comprovado para todas as cirurgias colorretais.
Cirurgia robótica no câncer de reto: onde a vantagem parece maior
Para entendermos isso, precisamos falar um pouco de anatomia.
O reto fica dentro da pelve, um espaço relativamente estreito cercado por estruturas importantes. Em pacientes obesos, principalmente homens com uma pelve mais estreita, realizar uma cirurgia nessa região pode ser tecnicamente bastante difícil.
Além disso, ao redor do reto existem nervos responsáveis pelo funcionamento da bexiga e pela função sexual.
O que é a excisão total do mesorreto (TME)?
Durante uma operação para câncer de reto, precisamos remover o reto e o tecido ao seu redor seguindo planos anatômicos muito específicos. Essa operação é chamada de excisão total do mesorreto (TME).
Quanto mais precisamente conseguimos identificar e seguir esses planos, melhor. É justamente nesse cenário que as características do robô — visão tridimensional ampliada, estabilidade e instrumentos articulados — podem ser especialmente úteis.
E temos agora um grande estudo randomizado trazendo informações muito interessantes.
O estudo REAL trouxe resultados de longo prazo
O estudo REAL é um dos trabalhos mais importantes publicados até hoje comparando cirurgia robótica e laparoscópica para câncer de reto médio e baixo. Já comentamos aqui no blog os primeiros resultados desse mesmo estudo, quando ainda eram dados de curto prazo.
Foram incluídos pacientes de 11 centros, e os cirurgiões participantes eram experientes e previamente certificados para realizar os procedimentos.
Os resultados iniciais já haviam mostrado vantagens da cirurgia robótica relacionadas à qualidade da operação e à recuperação pós-operatória. Posteriormente foram publicados os resultados de longo prazo e eles chamaram bastante atenção:
taxa de recorrência locorregional do câncer em três anos: 1,6% na cirurgia robótica contra 4,0% na cirurgia laparoscópica;
sobrevida livre de doença em três anos: 87,2% na cirurgia robótica contra 83,4% na laparoscópica;
sobrevida global em três anos: 94,7% na cirurgia robótica contra 93,0% na laparoscópica, sem diferença estatisticamente significativa.
Ou seja, o REAL encontrou um sinal bastante relevante de benefício oncológico da cirurgia robótica, principalmente em relação à recorrência local. É um resultado que merece atenção.
Preservar nervos também importa: função urinária e sexual
Outro resultado interessante do estudo REAL foi relacionado à função dos pacientes depois da cirurgia.
Os pacientes submetidos à cirurgia robótica apresentaram melhores resultados em alguns momentos do acompanhamento relacionados à função intestinal, urinária e sexual.
A função urinária permaneceu melhor no grupo robótico até 12 meses depois da operação, assim como alguns parâmetros da função sexual masculina. Isso reforça uma hipótese que já discutimos há algum tempo.
Durante a cirurgia do reto, trabalhamos muito próximos dos nervos da pelve. Esses nervos participam do controle da bexiga e da função sexual.
Quanto melhor conseguimos visualizar essas estruturas e quanto mais delicada é a dissecção, teoricamente maior é nossa capacidade de preservá-las.
Os resultados recentes sugerem que essa vantagem técnica pode, em determinadas situações, realmente se transformar em benefício funcional para o paciente.
Então está provado que a cirurgia robótica de intestino é melhor?
Aqui precisamos ter cuidado.
Se selecionarmos apenas os estudos favoráveis à cirurgia robótica, poderíamos chegar facilmente a essa conclusão. Mas a medicina baseada em evidências não funciona assim. Precisamos olhar também para os estudos que não encontraram vantagens.
O que mostrou o estudo COLRAR
O estudo randomizado COLRAR comparou cirurgia robótica e laparoscópica para câncer de reto médio e baixo e não encontrou diferença significativa na qualidade da excisão total do mesorreto: ela foi considerada completa em 80,7% das cirurgias robóticas e 77,1% das laparoscópicas.
Também não houve diferença global no número de linfonodos retirados ou nas complicações pós-operatórias.
Por outro lado, em uma análise específica, a margem circunferencial comprometida ocorreu em 0% no grupo robótico contra 6,1% no laparoscópico, e os pacientes operados por robótica utilizaram opioides por menos tempo.
O que mostrou o estudo ROLARR
Outro estudo importante, o ROLARR, também não conseguiu demonstrar diferença estatisticamente significativa no seu desfecho principal de conversão para cirurgia aberta, embora numericamente ela tenha ocorrido em 8,1% das cirurgias robóticas e 12,2% das laparoscópicas. Portanto, existem resultados divergentes.
Quem pode se beneficiar mais da cirurgia robótica de intestino?
Provavelmente não existe uma resposta única.
Em uma colectomia relativamente simples, realizada em um paciente magro e com anatomia favorável, a diferença entre uma cirurgia laparoscópica bem executada e uma cirurgia robótica pode ser pequena.
Mas essa diferença pode aumentar à medida que a operação se torna tecnicamente mais difícil. É por isso que os benefícios da cirurgia robótica parecem particularmente interessantes em situações como:
cirurgias do reto médio e baixo;
pelve estreita;
paciente obeso;
operações que exigem dissecções profundas e delicadas próximas a nervos e outras estruturas importantes.
Nesses casos, a capacidade de trabalhar com instrumentos articulados e visão tridimensional ampliada pode fazer mais diferença.
Afinal, vale a pena fazer uma cirurgia robótica de intestino?
A resposta continua sendo: depende do paciente, da doença, da operação e da experiência da equipe.
Não acredito que a discussão correta seja simplesmente escolher entre "robô ou laparoscopia". As duas são técnicas minimamente invasivas excelentes.
O que estamos aprendendo com os estudos mais recentes é que a cirurgia robótica parece oferecer algumas vantagens reais e que essas vantagens provavelmente aumentam justamente nas operações tecnicamente mais complexas.
Talvez o principal ganho está em conseguir fazer determinados passos da mesma cirurgia com mais estabilidade, precisão e delicadeza.
E, quando estamos trabalhando a poucos milímetros de vasos, nervos, ureteres, órgãos genitais e estruturas responsáveis pela função urinária e sexual, alguns milímetros podem fazer diferença.
Ainda precisamos de mais estudos randomizados e acompanhamento de longo prazo para determinar até onde essas vantagens técnicas se traduzem em melhores resultados clínicos e oncológicos.
Mas a evidência acumulada nos últimos anos permite dizer que a cirurgia robótica deixou de ser apenas uma promessa tecnológica.
Ela é hoje uma alternativa consolidada dentro da cirurgia colorretal minimamente invasiva e, quando bem indicada e realizada por uma equipe experiente, pode oferecer vantagens importantes principalmente nos casos tecnicamente mais desafiadores.
Continuamos sempre nos atualizando e tentando trazer o melhor para os nossos pacientes e sempre tentaremos trazer as evidências mais recentes para vocês.
Boa semana a todos!
Dr. Bruno Werneck
CRM-MG 36.980
Coloproctologista RQE 16.841
Cirurgião Geral RQE 22.235
Continue aprendendo:
Referências científicas principais
Choi S, Chae G. Robot-assisted versus laparoscopic surgery for rectal cancer: a systematic review and meta-analysis of randomised trials with GRADE certainty rating. Surgical Endoscopy. Publicado em 11 de agosto de 2026. doi:10.1007/s00464-026-13273-8.
Feng Q, Yuan W, Li T, et al. Robotic vs Laparoscopic Surgery for Middle and Low Rectal Cancer: The REAL Randomized Clinical Trial. JAMA. 2025;334(2):136-148. doi:10.1001/jama.2025.8123.
Feng Q, Yuan W, Li T, et al. Robotic versus laparoscopic surgery for middle and low rectal cancer (REAL): short-term outcomes of a multicentre randomised controlled trial. Lancet Gastroenterology & Hepatology. 2022;7:991-1004. doi:10.1016/S2468-1253(22)00248-5.
Park JS, Lee SM, Choi GS, et al. Comparison of Laparoscopic Versus Robot-Assisted Surgery for Rectal Cancers: The COLRAR Randomized Controlled Trial. Annals of Surgery. 2023;278(1):31-38. doi:10.1097/SLA.0000000000005788.
Jayne D, Pigazzi A, Marshall H, et al. Effect of Robotic-Assisted vs Conventional Laparoscopic Surgery on Risk of Conversion to Open Laparotomy Among Patients Undergoing Resection for Rectal Cancer: The ROLARR Randomized Clinical Trial. JAMA. 2017;318:1569-1580.
Chiang FF, et al. Robotic-Assisted Colon Cancer Surgery: Faster Recovery and Less Pain Compared to Laparoscopy in a Retrospective Propensity-Matched Study. Cancers. 2025;17(2):243.




Comentários