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Câncer anal: causas, sintomas e como preveni-lo

há 9 horas
8 min de leitura
o câncer do canal anal não é a mesma coisa que câncer de intestino

Quando falamos em câncer do intestino, a maioria das pessoas pensa imediatamente na colonoscopia, nos pólipos e no câncer colorretal. Entretanto, existe outro tumor, bem menos frequente, que surge em uma região muito próxima, mas tem causas, prevenção e tratamento bastante diferentes: o câncer do canal anal.


E existe uma informação particularmente importante sobre essa doença: na maioria dos casos, ela está relacionada à infecção pelo papilomavírus humano, o HPV.


Estas duas informações acima são muito importantes! Câncer de canal anal não é a mesma coisa que câncer de intestino e o HPV que causa o câncer de colo uterino também está relacionado a seu aparecimento.


Isso muda bastante a maneira como devemos pensar nesse câncer. Hoje, existem estratégias capazes de atuar em diferentes momentos da doença:


  • A vacinação pode reduzir a infecção pelos principais tipos oncogênicos do HPV;

  • Em determinados grupos de maior risco, podemos identificar e tratar lesões precursoras; 

  • Quando o câncer já está presente, a combinação de radioterapia e quimioterapia consegue tratar muitos pacientes, sem a necessidade inicial de retirada do ânus.


Vamos entender melhor a seguir.


Câncer do canal anal não é a mesma coisa que câncer de intestino

Embora reto e canal anal sejam regiões vizinhas, os tumores que surgem nesses locais são biologicamente diferentes.


A maior parte dos cânceres de cólon e reto corresponde a adenocarcinomas e costuma se desenvolver a partir de alterações progressivas da mucosa intestinal, frequentemente relacionadas aos pólipos adenomatosos.


No canal anal, o tipo de câncer mais frequente é o carcinoma de células escamosas.


E aqui encontramos uma diferença fundamental: enquanto o HPV não é considerado a causa habitual do câncer colorretal, ele desempenha papel central no desenvolvimento da maioria dos carcinomas escamosos do canal anal.


Por isso, não devemos colocar todas essas doenças simplesmente dentro do mesmo grupo de "câncer de intestino".


Qual é a principal causa do câncer anal?

A principal associação do câncer do canal anal é com a infecção persistente por tipos de alto risco do HPV, especialmente o HPV-16.


O HPV é extremamente comum. No entanto, ter HPV está muito longe de significar que uma pessoa desenvolverá câncer.


Na grande maioria das pessoas, o sistema imunológico consegue controlar a infecção. O problema ocorre quando uma infecção por um HPV de alto risco persiste durante anos e provoca alterações progressivas nas células da região anal.


O processo tem semelhanças importantes com o que acontece no câncer do colo do útero.


O que é a lesão precursora HSIL?

Antes do câncer invasivo, pode surgir uma alteração chamada lesão intraepitelial escamosa de alto grau, conhecida pela sigla inglesa HSIL. Antigamente, essas alterações também eram frequentemente classificadas como neoplasia intraepitelial anal de graus 2 e 3, ou AIN 2/3.


A HSIL ainda não é um câncer. É uma lesão precursora, ou seja, uma alteração celular que apresenta maior possibilidade de evoluir para câncer ao longo do tempo.


Esse conceito se tornou extremamente importante porque abriu a possibilidade de não apenas diagnosticar precocemente o câncer anal, mas, em determinadas populações, tentar impedir que ele apareça.


HPV é sinônimo de câncer?

Definitivamente, não. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes deste texto.


A infecção pelo HPV é muito frequente, enquanto o câncer anal permanece relativamente raro na população geral. Portanto, existe uma enorme diferença entre entrar em contato com o vírus e desenvolver uma doença maligna.


Além disso, existem muitos tipos diferentes de HPV. Alguns estão relacionados principalmente às verrugas genitais e anais. Outros são classificados como HPV de alto risco oncogênico, porque apresentam maior associação com câncer.


Entre estes, o HPV-16 é, de longe, o mais importante no câncer anal. Estudos mostram que ele está presente em aproximadamente 73% dos cânceres anais HPV-positivos, enquanto o HPV-18 responde por uma proporção bem menor.


Portanto, não devemos transformar o diagnóstico de HPV em motivo para pânico. O que importa é entender o tipo de infecção, sua persistência, a presença ou não de lesões associadas e, principalmente, os fatores de risco individuais.


Quem apresenta maior risco de desenvolver câncer anal?

O câncer anal pode ocorrer em qualquer pessoa, mas sua incidência é muito diferente entre determinados grupos.


Imunossupressão e HIV

Um dos fatores mais importantes é a imunossupressão. Pessoas vivendo com HIV, especialmente homens que fazem sexo com homens, apresentam incidência de câncer anal muito superior à encontrada na população geral.


O risco também é maior em receptores de transplantes de órgãos sólidos, que utilizam medicamentos imunossupressores durante períodos prolongados.


Mulheres que já apresentaram lesões de alto grau ou câncer relacionados ao HPV em outras regiões, especialmente vulva, colo do útero e vagina, também constituem grupos que merecem atenção.


Outros fatores de risco

Outros fatores associados incluem tabagismo, histórico de verrugas anogenitais, outras infecções sexualmente transmissíveis e maior exposição ao HPV.


A prática de sexo anal receptivo também está associada a maior exposição ao HPV anal. Entretanto, é importante evitar uma interpretação simplista dessa informação: não é necessário ter praticado sexo anal para desenvolver câncer anal.


O HPV pode atingir toda a região anogenital, e o câncer anal também ocorre em pessoas sem história de relação sexual anal.


Quais sintomas o câncer anal pode causar?

Um dos problemas é que seus sintomas iniciais podem ser confundidos com doenças anais benignas extremamente frequentes.


Entre as manifestações possíveis estão:

  • Sangramento anal;

  • Dor ou desconforto;

  • Presença de um nódulo ou endurecimento;

  • Ferida que não cicatriza;

  • Coceira ou secreção persistente;

  • Alteração do hábito intestinal ou dificuldade para evacuar;

  • Sensação de massa no canal anal;

  • Aumento de linfonodos na região da virilha.


E aqui existe uma mensagem, que repito frequentemente no consultório: nem todo sangramento anal é hemorroida.


Hemorroidas são muito mais comuns que câncer anal, evidentemente. Mas um sintoma persistente não deve simplesmente receber o rótulo de hemorroida, sem uma avaliação adequada.


O exame da região anal e o toque retal continuam sendo extremamente importantes. Quando existe uma lesão suspeita, a confirmação diagnóstica é realizada por biópsia.


Descobri um câncer anal. Vou precisar retirar o ânus e usar uma colostomia?

Essa é provavelmente uma das maiores preocupações de quem recebe esse diagnóstico.

E a resposta, na maioria dos casos de carcinoma escamoso do canal anal localizado, é: não necessariamente. E, geralmente, não como primeiro tratamento.


Isso diferencia profundamente o câncer anal de muitos tumores do reto.


Durante décadas, o tratamento cirúrgico significava a retirada do reto e do canal anal, com realização de uma colostomia definitiva. A estratégia mudou radicalmente a partir dos trabalhos iniciados por Norman Nigro na década de 1970.


Tratamento padrão: quimiorradioterapia

Atualmente, para a maioria dos carcinomas escamosos localizados do canal anal, o tratamento padrão é a quimiorradioterapia concomitante. Ou seja: radioterapia associada à quimioterapia.


A combinação tradicional utiliza fluorouracil e mitomicina, embora existam variações de esquema de acordo com características do paciente e protocolos oncológicos.


Grandes estudos demonstraram que associar quimioterapia à radioterapia melhora o controle local da doença, quando comparado à radioterapia isoladamente.


O grande objetivo é bastante claro: tratar o câncer preservando o esfíncter anal sempre que possível.


O tratamento está evoluindo?

Sim. Apesar dos excelentes resultados obtidos em muitos pacientes com quimiorradioterapia, ainda existem desafios, principalmente nos tumores localmente avançados e na doença metastática.


Novas estratégias vêm sendo estudadas, incluindo diferentes sequências de quimioterapia, adaptação da radioterapia e, principalmente, imunoterapia.


Os medicamentos que atuam sobre a via PD-1/PD-L1 já modificaram o tratamento de vários tumores e também vêm sendo estudados no câncer anal.


Estudos recentes avaliam a incorporação da imunoterapia em diferentes fases do tratamento, mas isso não significa que ela tenha simplesmente substituído a quimiorradioterapia para todos os pacientes com doença localizada.


Esse cuidado é importante quando falamos sobre "novos tratamentos": resultados promissores precisam ser diferenciados daquilo que já constitui tratamento padrão.


Talvez a maior novidade esteja antes do câncer aparecer

Aqui chegamos ao ponto que considero mais interessante desta atualização.


Durante muito tempo, sabíamos que o câncer anal estava relacionado ao HPV e que existia uma lesão precursora, a HSIL. Entretanto, faltava uma pergunta fundamental: se encontrarmos e tratarmos essas lesões, realmente conseguimos evitar o câncer anal?


Hoje temos uma resposta muito melhor.


O estudo ANCHOR, publicado no New England Journal of Medicine em 2022, avaliou mais de 4.400 pessoas vivendo com HIV, com 35 anos ou mais, que apresentavam HSIL anal comprovada por biópsia.


Os participantes foram divididos entre tratamento das lesões e acompanhamento ativo.

O resultado foi importante: o tratamento das HSIL reduziu em 57% a taxa de progressão para câncer anal em comparação com o acompanhamento sem tratamento.


Esse estudo mudou a forma como encaramos a prevenção do câncer anal em populações de alto risco.


É importante fazer uma ressalva: esses resultados foram demonstrados especificamente em pessoas vivendo com HIV e HSIL comprovada. Não devemos automaticamente extrapolar o mesmo benefício para toda a população.


A vacina contra HPV também previne câncer anal?

a vacina contra HPV ajuda a proteger contra o câncer anal
O SUS utiliza dose única para a vacinação de meninas e meninos de 9 a 14 anos

Essa talvez seja a medida de prevenção mais importante a longo prazo.


Existe forte fundamento biológico e evidência de que a vacinação reduz infecções e lesões precursoras anais causadas pelos tipos de HPV incluídos na vacina.


Estudos realizados em homens que fazem sexo com homens demonstraram elevada eficácia da vacinação contra lesões intraepiteliais anais relacionadas aos tipos de HPV presentes na vacina, quando administrada antes da infecção.


Além disso, um grande estudo populacional dinamarquês encontrou redução importante das lesões anais de alto grau ou câncer entre mulheres vacinadas precocemente.


Isso reforça um princípio básico da vacinação contra HPV: quanto mais cedo ela for realizada, idealmente antes da exposição ao vírus, maior o potencial de proteção.


E como funciona a vacinação contra HPV no Brasil?

Aqui precisamos diferenciar recomendações internacionais do nosso Programa Nacional de Imunizações.


Atualmente, o SUS utiliza dose única para a vacinação de rotina de meninas e meninos de 9 a 14 anos.


Existem esquemas e indicações específicos para outros grupos, incluindo pessoas vivendo com HIV, transplantados, pacientes oncológicos, usuários de PrEP e outras situações definidas pelo Ministério da Saúde. Pessoas imunodeprimidas, por exemplo, recebem esquema de três doses.


Em 2026, o Ministério da Saúde também prorrogou uma estratégia de resgate vacinal para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que ainda não haviam sido vacinados, ampliando a oportunidade de proteção para quem perdeu a vacinação na idade recomendada.


A vacina não trata uma infecção pelo HPV que já esteja presente, nem elimina uma HSIL já estabelecida. Seu principal papel é prevenir novas infecções pelos tipos de HPV contemplados pela vacina.


O uso de preservativo elimina o risco?

Não completamente. O uso de preservativos reduz o risco de transmissão de diversas infecções sexualmente transmissíveis e continua sendo uma medida importante de prevenção.

Entretanto, o HPV pode estar presente em regiões da pele não cobertas pelo preservativo. Por isso, ele reduz a exposição, mas não oferece proteção absoluta contra o HPV.


Esse é mais um motivo pelo qual a vacinação possui papel tão importante.


Para finalizar

O câncer do canal anal é relativamente raro, mas não deve ser negligenciado.


Sangramento, dor, feridas persistentes ou nódulos na região anal merecem avaliação, principalmente quando não desaparecem ou apresentam características diferentes das doenças anais habituais.


Também precisamos abandonar alguns preconceitos. HPV é uma infecção extremamente comum. Ter HPV não significa ter câncer, e câncer anal não é uma doença restrita a determinado comportamento sexual.


O conhecimento atual nos permite uma abordagem muito mais racional.


Podemos reduzir o risco por meio da vacinação contra HPV. Podemos identificar grupos que merecem acompanhamento específico. Podemos diagnosticar e tratar determinadas lesões precursoras. E, quando o câncer já se desenvolveu, a maioria dos carcinomas escamosos localizados pode ser tratada inicialmente com quimiorradioterapia, buscando preservar o canal anal e evitar uma colostomia definitiva.


Poucas coisas são tão importantes na medicina quanto conseguir tratar bem uma doença. Uma delas é conseguir evitar que ela apareça.


Cuide-se!


Dr. Bruno Werneck

CRM-MG 36.980 

Coloproctologista RQE 16.841

Cirurgião Geral RQE 22.235


Continue aprendendo:


Referências científicas

  1. Palefsky JM, Lee JY, Jay N, et al. Treatment of Anal High-Grade Squamous Intraepithelial Lesions to Prevent Anal Cancer. N Engl J Med. 2022;386:2273-2282.

  2. Palefsky JM. Prevention of Anal Cancer in High-Risk Individuals. JAMA. 2024;332(19):1663-1664.

  3. Lozar T, Carchman E. Pathophysiology of Anal Cancer. Surg Oncol Clin N Am. 2025;34(1):21-35.

  4. Stewart DB, Gaertner WB, Glasgow SC, et al. The American Society of Colon and Rectal Surgeons Clinical Practice Guidelines for Anal Squamous Cell Cancers. Dis Colon Rectum. 2018;61(7):755-774.

  5. Valadão M, Riechelmann RP, Silva JACE, et al. Brazilian Society of Surgical Oncology: Guidelines for the management of anal canal cancer. J Surg Oncol. 2024;130(4):810-829.

  6. Systemic Therapy for Stage I-III Anal Squamous Cell Carcinoma: ASCO Guideline. J Clin Oncol.

  7. Stier EA, Clarke MA, Deshmukh AA, et al. International Anal Neoplasia Society's consensus guidelines for anal cancer screening. Int J Cancer. 2024.

  8. Baandrup L, Maltesen T, Dehlendorff C, Kjaer SK. Human Papillomavirus Vaccination and Anal High-Grade Precancerous Lesions and Cancer: A Real-World Effectiveness Study. J Natl Cancer Inst. 2024;116(2):283-287.

  9. Palefsky JM, Giuliano AR, Goldstone S, et al. HPV Vaccine against Anal HPV Infection and Anal Intraepithelial Neoplasia. N Engl J Med. 2011;365:1576-1585.


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